
É o que propõe o
projeto Abduzidos, assinado
por Danilo de S’Acre e Sílvio Margarido
Rose Farias
Abduzidos
é o nome do projeto que tem à frente uma dupla de irreverentes
articuladores das artes: o artista plástico Danilo de S’Acre
e o percussionista Sílvio Margarido. A idéia inicial era mesclar
de forma bem elaborada artes plásticas, música, fotografia e
vídeo. Mas foi descartada, segundo a dupla devido ao seu alto custo.
Nem por isso, os dois desistiram de realizar o projeto, aprovado pela Lei
de Incentivo à Cultura da Fundação Elias Mansour. Seguindo
a mesma roupagem inicial, numa lógica interplanetária, ou melhor
dizendo intergalática, agora unindo escultura e música incidental,
Abduzidos está em fase final de formatação e previsto
para entrar no circuito cultural de Rio Branco, a partir do mês de maio,
no Memorial dos Autonomistas.
A base reúne temas-conceitos abstratos sobre comunicação extraterrestre, intergalática, interplanetária, artística, musical, visual, espiritual, histórica.
“Abduzidos traz à tona temas como caos, linguagem, tecnologia e a abdução que é sair daqui mesmo se distanciar da realidade em que se vive, aí vem a saudade que é você lembrar de onde você estava, e o retorno. A idéia é como se a gente tivesse sendo levado mesmo por um disco voador, um extra-terrestre e fazer essa viagem: começar desde do caos até o retorno”, explica Maragarido.
Para fazer a viagem, a concepção do projeto no sentido musical , Sílvio diz que embarcou em toda uma pesquisa sonora, que não descarta o improviso.
“Todo o projeto vai ficar em cima do trabalho do Danilo, que reúne como base esculturas em sucata, poesias minha e dele, e a música de improviso, percussão e teclado, algo incidental em cima dos temas”, diz.
Danilo de S’Acre tece o fio condutor do trabalho plástico, focalizando nas esculturas de sucata, quadros e instalações a utilização de materiais descartáveis para conceber o projeto Abduzidos.
“Temos umas 20 peças criadas com material plástico, barro, sucata de ferro, tintas spray, esmalte e outros”, diz Danilo.
As cores que o artista utiliza parecem saltar dando vida as esculturas. Danilo explica que o uso dela é um referencial que marca seu trabalho.
“Apesar do ferro e do metal, gosto de utilizar a cor nas minhas peças. De abusar da cartela. Esse uso abusivo mexe, encanta, reflete, respira. Parece que algo está vivo e salta”, define.
Em algumas peças se percebe a presença marcante de círculos, como num moto contínuo. Para Danilo são mandalas.
“No início nós pensávamos em fazer a exposição em forma de círculo, o simbolismo de uma nave espacial, um disco voador. Como se algo estivesse se projetando para o espaço”, finaliza.
Tema1
O princípio frio e vazio, único e diverso
em si, explode num big bang silencioso, restrito pelo tempo. O espaço
dobrou as paralelas, curvando a luz num arco-íris terrestre
Fiat Lux invisível
Diz verbo bitransitivo de paralelas em curvas de galáxias espirais
No berçário, gazes conquistam distâncias condensadas num
buraco negro
Sóis acompanhados de planetas e de luas crescentes imaginam-se poesias
Verbo pensa mito, matemática de aminoácidos de carbono na água
química dos cristais pedregozosos...
Línguas de fogo saltam na saliva, devorando bactérias ardentes
Arrastam-se pelo lodo do fogão e reagem minerais dourados
Folhas beijam luz e vomitam gazes
Línguas criam dentes e comem folhas
Uns massageiam aos outros
Massificam os desejos
Mistificam queres
E amam uma vida
A sua casa, a dos vizinhos
Comem-se em orgia líquida e silenciosa
Evolutivadas por milhões de arco-íris
Partículas mínimas de luz
Tudo explode em um som de ouvidos inexistentes
Gravadores biológicos reproduzem o big bang em uma escala de 8 bilhões
de oitavas
Nonas e décimas existências em DNA e son-hos gritados e imaginados
por goelas ancestrais
O olho, permanente contato da luz, revela brechas de escuridão
Juntos formam visões de realismo fantástico em pares de milhões
O gemido do sonho da explosão acorda de um pesadelo
E a guerra do céu chega à terra de carona em cometas e meteoros
Carregados de consciência pecado e perdão
O paraíso nos é dado e tomado no início
A carne vale o sacrifício da morte dos irmãos
A mãe culpada implora por seus filhos
Virgem acolhe cada um como um animal irracional
Caçando e trocando carnes mergulham em vestígios de passado
Aprendem cantando a dor e o amor
Falar são declarações, retratos, comunhão
Entender, pura razão
Continua a explosão e o som
Pouco mais que o silêncio
O giz escrevendo na pedra uma oração
O arfar de orgasmos populacionais no choro do censo
Ecoam em ondas de imagens e sons os capítulos do tempo virtual
Fragmento do ritmo da explosão
Combustão é impulso da navegação
E o vento solar empurra barcos no mar invisível
Anjos, santos e homens travestidos
Disputam a vontade
Do bem e do mal
Nada mais mais havia de igual
Cada um tomou o seu caminho
Que de único e diverso
Uni
versos