
José Cláudio Mota Porfiro *
Não basta ser educador. Também, de forma alguma, convém apenas investir-se do espírito crítico. Importa ir além. É preciso observar com acuidade o desenvolvimento das gerações que se sucedem. É interessante ver que as dobras e curvas da história vão guardando sutilezas talvez só explicadas pelos espíritos mais argutos, mais perspicazes, mais atentos.
No último dia três de março, completei vinte anos de trabalho no antigo CESEME, onde tenho auxiliado alguns mais jovens na empreitada tenaz que é a busca e a transmissão do conhecimento. Foram tempos de idas e vindas. Amarguei duras épocas de cuspe e giz. Mas nunca faltou a boa vontade, principalmente, depois que passei a encontrar nas ruas ex-alunos meus já desempenhando encargos enquanto advogados, economistas, médicos, professores, dentre outras ocupações de nível superior. Alvíssaras! Tudo está debitado em nome da graça de Deus.
Duas décadas passadas no contato com o ensino médio deram a mim alguma experiência enquanto professor, e muito mais enquanto cidadão sempre prestes a ajudar sem querer nada de volta.
Do acúmulo das vivências escolares sobraram muitas observações, algumas pertinentes, como, por exemplo, o fato de, no início da década de oitenta, o livro de chamada vir repleto de Antonios, Franciscos, Josés, Marias, Manuéis e Raimundos. Hoje, ao contrário, em vista da dinâmica do idioma, tais nomes já não constam das listas. Usam-se anglicismos como Allan, Charles, Deivid, Frank, Weverton, e assim por diante.
Ademais, outra observação me fez chegar a conclusões um tanto instigantes. Notei que, hoje, o número de mulheres matriculadas é maior que o de homens, pelo menos na escola pública, que é de onde extraio estas experiências. Ao lado deste aspecto, observo, ainda, que, no ensino privado ou na escola pública, há algum tempo, ou pelo menos na minha época de estudante, a maior parte dos alunos aplicados estava entre os homens.
Desta forma, se vos falo de escola pública e revelo as minhas preocupações, é porque a maior parte dos brasileiros se insere neste espaço.
E o que vemos hoje? Na verdade, atualmente, as mulheres predominam, têm se sobressaído com muito brilhantismo e mostrado esforço e competência. Nas salas de aula, o maior número de matriculados está entre as mulheres. Quem realmente se dedica aos estudos são elas. Às vinte e duas e trinta, entre quinze alunos que ainda toleram o professor, onze são mulheres. Dificilmente uma mulher cochila em vista da atenção que está presa nos temas abordados. Com os homens ocorre o contrário.
É preciso que as novas gerações de meninos estejam preparadas para uma época em que o gênero feminino assumirá as rédeas da civilização e os destinos do lar. Os rapazes, com exceções, é claro, têm preferido a farra, a bagunça, o descompromisso, a irresponsabilidade. Já as mulheres, como todas as ocidentais, assumiram as posições conquistadas e já dão conta do recado com grande senso de responsabilidade a partir das mais moças.
Por isto, rapaziada, digo-vos que é muito nebuloso o futuro que se desenha. Serei filósofo aos oitenta anos, mas hoje já posso prever que as possibilidades são muito grandes de os homens irem esfriar a barriga no tanque e esquentar no fogão, com rápidas exceções, enquanto as mulheres se desdobrarão na faina diária que coloca o sustento da família dentro de casa.
Cuidado, moços!
* Do Departamento de Filosofia e Ciências Sociais/UFAC: claudiogibiri@hotmail.com.br