
Pastor batista defende fiscalização
da Receita em igrejas pentecostais
Tese de doutor em Psicologia Social
comprova interesse
crescente das igrejas evangélicas acreanas pela política
Josafá Batista
Um fenômeno social relativamente novo está
mudando o perfil da facção religiosa que mais cresce no Acre:
os evangélicos. A conclusão é do doutor em Psicologia
Social, Enock da Silva Pessoa, que atesta uma aproximação dos
ramos histórico e pentecostal da vida política. Numa pesquisa
realizada para sua tese de doutorado “O Discurso Evangélico como
Expressão de Cidadania”, Enock Pessoa concluiu que as igrejas
evangélicas, historicamente fragmentadas, tentam agora se unir em torno
de sínodos ou associações, fortalecendo e sintonizando
assim seus discursos políticos e sociais.
O psicólogo social também defende uma fiscalização
das igrejas pentecostais, que surgem sem qualquer critério nos bairros.
A reorganização, no Acre, das lideranças evangélicas
tradicionais, pentecostais e os neopentecostais, mostra um fenômeno
recente do grupo religioso, atesta a pesquisa. Segundo Enock, as lideranças
evangélicas têm agora um maior conhecimento da própria
aceitação social, sabem que vêm crescendo em número
e representatividade, e, por isso, tentam se adaptar, esquecendo um passado
crivado de preconceitos e perseguições, para se estabelecer
como francas colaboradoras no processo de desenvolvimento coletivo.
“Há uma consciência maior dos evangélicos do seu próprio papel social e político hoje em dia. Isso não acontecia antigamente. Os evangélicos sofriam com um preconceito velado da sociedade e se comportavam como tal, restringindo-se a grupos familiares, ou, quando muito, comunitários. Hoje não. O nível de escolarização aumentou, a participação social também, as igrejas desenvolvem hoje enormes redes de solidariedade e casas de recuperação, combate à fome, enfim, levam cidadania e participam dela”, explica Enock Pessoa, que também é pastor batista.
Sintonia com partidos de esquerda
Segundo a pesquisa, lideranças de igrejas históricas (presbiterianos, batistas e luteranos) se posicionam politicamente mais à esquerda, têm maior nível educacional, maior renda, mais tempo de filiação religiosa e são mais favoráveis à entrada de evangélicos na política. Os pentecostais (Assembléia de Deus, Quadrangular, Deus é Amor) têm renda, grau de instrução, tempo de filiação religiosa média e também preferem mais candidatos de esquerda.
A exceção fica por conta dos os neopentecostais (Universal do Reino de Deus, Igreja da Graça, Casa da Bênção) respondem às questões políticas de modo mais religioso, manifestam crenças mais negativas na política e são menos favoráveis à participação dos seus integrantes, manifestando maior simpatia por partidos de direita.
“Também concluí, em minhas pesquisas de campo, que quando maior no nível educacional, maior é a preferência dos entrevistados dos três grupos por partidos de esquerda. Os homens tendem a escolher mais partidos de esquerda que as mulheres, cuja maioria preferiu não declarar seu voto”, explica o psicólogo social.
A hipótese central da tese de Enock é que os evangélicos em geral estão cada vez mais ganhando consciência política, principalmente os históricos, que têm maior escolaridade e estão mais próximos do espírito da Reforma Protestante.
Controle estatal nas denominações
A liberdade democrática que permite a amplitude de debates sociais também patrocina os mais diversos mecanismos de exploração econômica. Uma contradição aparente apenas, já que é a ineficiência de fiscalização do poder público a culpada pela maratona de golpes e contos-do-vigário aplicados por supostos pastores nos incautos fiéis.
Para resolver esse problema, antevendo os efeitos que podem causar a cada vez maior popularização das chamadas “igrejas de bairro”, que não exigem qualquer preparação teológica dos seus líderes, Enock Pessoa defende o controle da Receita Federal nos cofres e no funcionamento empresarial das denominações.
“Alguém pode argumentar que as igrejas são organizações sem fins lucrativos, do ponto de vista legal. Mas o fato de se organizar como igreja, se declarar dessa forma e afixar placas, pedindo dízimos e ofertas, muitas vezes de forma até exagerada, permite a fiscalização do Estado. Creio que é uma brecha válida na legislação que o Estado pode e deve aproveitar, para garantir a lisura e até a credibilidade das igrejas comprometidas com a causa social”, explicou Enock.