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Rio Branco - Acre, domingo, 13 de abril de 2003

Fundhacre evolui como
hospital de especialidades

Com quatro anos de crescimento, unidade aumenta seus atendimentos e amplia a atuação como hospital-escola para todo o Estado do Acre

Flaviano Schneider

A Fundação Hospital Estadual do Acre (Fundhacre) é a maior unidade de Saúde do Acre e sua principal característica é o fato de os médicos todos serem especialistas. Assim, as pessoas que lá chegam para serem atendidas já devem ter feito a consulta num posto de saúde para então procurar um agendamento para consulta, cirurgia ou exame.

Atendendo pacientes de todo o Estado, só no ano passado aconteceram 102.569 consultas. Nos últimos 4 anos, vários setores tiveram significativos aumentos: o de cirurgias, por exemplo, aumentou em 51%, passando de 2.826 cirurgias em 1998 para 4.270 em 2002. O número de internações aumentou 62,35% e o de pacientes admitidos na UTI aumentou 147%. Os exames clínicos aumentaram em 140% atingindo o montante de 198.470 no ano passado. O número de Raio-X aumentou em 179% e o de procedimentos de reabilitação física aumentou em 179, 45% atingindo 20.975 atendimentos em 2002.

Nos últimos 4 anos houve uma gradual transformação da filosofia e da prática reinantes na casa para atingir na plenitude esta finalidade como conta o diretor superintendente da Fundhacre, médico Amsterdam Sandres. O processo de mudança - ele explica - foi iniciado em 1999 sendo enviados os médicos de clínica geral que atuavam na Fundhacre para os postos nos bairros onde fariam o primeiro atendimento. Somente então o paciente seria encaminhado à Fundhacre. Depois disso, o processo se completou com a municipalização da saúde quando o governo do Estado repassou todos os postos reformados e equipados para a estrutura municipal. Os médicos que foram para os postos foram substituídos, gradualmente, por especialistas, que são hoje em número de 70, atendendo em 24 especialidades.

Passou-se então à organização do serviços de especialidades também para dar suporte à residência médica. Outra característica importante da Fundhacre, Sandres explica, é funcionar como órgão auxiliar de ensino: “Hoje nós temos médicos residentes que trabalham aqui conosco, participam da forma de atenção ao paciente. É muito diferente um hospital de ensino de um hospital que não tem esta finalidade”.

Qualidade do atendimento aumentou

Embora a evolução no aspecto quantitativo já deixa o diretor satisfeito, ele considera que nos aspecto qualitativo o progresso foi maior. A Fundhacre oferecia um serviço de baixa qualidade, em quantidade insuficiente tendo sido criada uma demanda reprimida muito grande.

A preocupação inicial - conta Sandres - foi melhorar as condições técnicas, oferecer o maior número de atendimentos possível e facilitar o acesso à população. Foi criado, por conta disso, o telefone de atendimento para o idoso e também o agendamento por telefone para os municípios aliado a um progressivo aumento do número de médicos especialistas. Foi criado um Núcleo de Nefrologia (rins) com atendimento para mais de 160 pacientes.

Além disso, a Fundhacre passou a assumir certas funções fora de seus muros atuando nas unidades de fisioterapia da escola Dom Bosco e da Funbesa e nas oficinas ortopédicas de Rio Branco e de Cruzeiro do Sul.

Como hospital-escola, a Fundhacre desenvolve importantes programas de ensino, ali funcionando o curso de mestrado, do convênio do governo do Estado com a UFBA. É também campo de estágio para os alunos de graduação de enfermagem da Ufac e para técnicos e auxiliares de enfermagem, além de ser o local onde se desenvolve a residência médica de cinco programas: ginecologia, pediatria, clínica médica, cirurgia geral e medicina geral comunitária.

“Nosso programa de residência médica de cirurgia geral já recebeu vários prêmios pela apresentação de trabalhos desenvolvidos aqui pelos alunos residentes e pelos médicos da casa”, destaca Amsterdam.

Ele chamou a atenção para a importância da atuação do médico e senador Tião Viana. “Na grande modificação que se verificou na saúde do Acre, a gente teve a participação do Tião em todas as etapas. Ele é nosso grande aliado, pois reúne, além do discernimento médico, uma atuante ação parlamentar em prol da saúde acreana.”

Novos projetos pretendem ampliar o atendimento

A vida continua e é preciso crescer sempre em busca de atender a demanda dinâmica e na Fundhacre este pensamento é uma constante.

Um dos mais importantes projetos para o futuro próximo é o do hospital de alta complexidade para tratamento do câncer denominado - Cacon. Conta Sandres que o andamento está na fase da prospecção do terreno. Vai necessitar de uma obra de engenharia civil muito complexa porque se vai trabalhar com radioterapia. “E é preciso um nível de segurança muito grande”, ressalta Sandres.

Ele vai se situar no mesmo terreno da Fundhacre e custará aproximadamente R$ 4 milhões. Destes o governo do Estado banca a obra física e contratação de pessoal e o Ministério da Saúde, através do Instituto Nacional do Câncer (Inca), os equipamentos e o treinamento.

Outro projeto é o de um centro de reabilitação e readaptação, que servirá para tratamento de pessoas que necessitam de cuidados especiais, sequelados de lesões neurológicas, de trauma, de doenças deformantes. Esta unidade poderá ser em outro terreno para poder abrigar toda a complexidade de métodos terapêuticos necessários. Segundo Sandres a concepção do projeto já existe. “Pretendemos caminhar na direção de sua realização ainda este ano.”

O Hospital Trauma Ortopédico (HTO) do Rio de Janeiro em convênio com a Fundhacre fará próteses de cirurgia de quadril de alta complexidade. Virão 5 médicos que juntamente com o corpo clínico local atenderá 30 pessoas já agendadas para abril e maio.

Campanha do lábio leporino realizada pela Interplast já está no 4º ano consecutivo chegando a 104 intervenções em 2002. Foi o senador Tião Viana, conta Sandres quem identificou o problema na região e se empenhou para conseguir o convênio.

Sandres ainda destacou importantes avanços de ordem administrativa como a informatização que vai acontecendo gradualmente e a melhoria na recepção aos usuários que já tiveram que esperar uma ficha ao relento e hoje tem um ampla área coberta com muitos bancos, tv, água e outros.

A recepção está prestes a dar um grande salto qualitativo com a próxima inauguração do Centro de Conveniências, em construção pelo governo do estado, que abrigará os lanches que hoje poluem visualmente a entrada da Fundhacre. O local ainda abrigará o Cartório recém inaugurado que possibilita a retirada de certidões de nascimento e atestados de óbitos para procedimentos imediatos junto ao SUS e ainda um caixa eletrônico.

Como explicou o gerente administrativo, Alexandre Barros, que foi quem forneceu muitos dados para esta matéria “Estamos numa casa de dor e, para amenizar o sofrimento, procuramos a melhoria sempre.”

Problemas de ordem social dificultam a saúde pública

Críticas existem ao funcionamento na Fundhacre, pois o pleno atendimento é um objetivo perseguido mas não alcançado ainda.

“Nós avançamos muito” - fala Sandres. “O que as pessoas, às vezes, não conseguem perceber é que os problemas que chegam para que a saúde resolva tem origem em locais ou setores que nada tem a ver com a saúde. Sequelas sociais ou dificuldades de ordem social, acabam levando o indivíduo a ter doenças. São causas externas como a violência no trânsito, interpessoal, violência contra a criança ou contra a mulher, isto acaba gerando uma necessidade na área da saúde. Há diversos problemas nas condições de habitabilidade, a falta de saneamento, tudo isto levando a desequilíbrios do organismo e que acabam na Saúde. Agora nós somos obrigados a responder ao desafio de resolver problemas que são gerados por todas as circunstâncias da vida do cidadão. Na verdade, nós somos a última instância, onde se acabam todos os problemas de outros setores da sociedade. É uma luta difícil. Temos que estar constantemente buscando soluções para reduzir o impacto destes problemas.

Mesmo assim o médico é otimista: A razão para a gente continuar na saúde, seja médico ou enfermeiro é esperança. Nós que fizemos a opção de sermos trabalhadores na Saúde, se não tivéssemos isto como se diz que ‘a medicina é uma paixão que não tem cura’, nós já teríamos há muito tempo deixado”. Nos anima o fato de estarmos trabalhando pela constante melhoria dos trabalhos na saúde. Mesmo diante das condições que antigamente eram muito adversas, às vezes nos consultórios, sem poder de decisão nenhuma, mas sempre contribuindo para assistir à população. Nós que trabalhamos na Saúde somos otimistas incuráveis. O dr. Amsterdam Sandres e oftalmologista e médico do trabalho e está no Acre desde 1976, proveniente do Pará. Desde que chegou ele trabalha no setor de saúde pública no estado. Como diretor-superintendente da Fundhacre ele está desde abril de 2001.

Especialidades e médicos

Angiologia (3)
Buco-maxilo (3)
Cardiologia (2)
Cirurgia Pediátrica (2)
Cirurgia Geral (3)
Cirurgia plástica (1)
Cirurgia Torácica (2)
Clínica Médica (1)
Endocrinologia (1)
Fonoaudiologia (2)
Geriatria (1)
Ginecologia (7)
Hematologia (1)
Nefrologia (3)
Neurologia (1)
Neuro-cirurgia (4)
Nutrição (2)
Oftalmologia (7)
Ortopedia (7)
Otorrino (3)
Pediatria (6)
Psicologia (1)
Reumatologia (1)
Urologia (4)

Números apontam crescimento em todos os itens

A Fundhacre realizou em 2002 102.569 consultas. Desde 1998, o número de consultas aumentou pouco, mas elas deram muito mais resultados.

Cirurgias - aumento de 51,10% passando de 2.826 em 1998 para 4.270 em 2002;
Internações - aumento de 62,35%, passando de 4.669 em 1998 para 7.580 em 2002;
Pacientes admitidos na UTI - aumento de 147%, passando de 277 em 1998 para 686 em 2002;
Exames análise clínica - aumento de 140%, passando de 82.588 em 1998 para 198.470 em 2002;
Raios X - aumento de 179,45%, passando de 7.506 em 1998 para 20.975 em 2002;
Procedimentos do serviço de reabilitação física - aumento de 207%, passando de 11.244 para 34.514;
Refeições servidas - aumento de 15,9%

Atividades de Ensino

2001 - Hospital Auxiliar de Ensino
Pós graduação - stricto sensu
Mestrado em Medicina e Saúde
Já deu oportunidade a 8 profissionais - turma de 2002 e ainda conta com alunos especiais
Pós graduação Lato Sensu
Programa de residência médica - atualmente 23 residentes em pediatria, ginecologia\obstetrícia, cirurgia geral, medicina geral comunitária, clínica médica.
Programas do Ministério da Saúde
Hospitais colaboradores - Hospital Universitário de Fortaleza-CE
Programa Nacional de Humanização da Assistência hospitalar - Hospital Multiplicador
Hospital Sentinela

Serviços implantados após 1998

Admissões no serviço de nefrologia - 235 desde 2000
Pacientes atendidos de nefrologia: começou com 47 em 2000 saltando para 146 em 2002, aumento de 211%
Média mensal de agendamentos ao idoso - 581 em 2002 e 834 em 2003
Agendamento telefônico aos municípios 2.700, em 2002.
Cirurgias de lábio leporino
Começou em 1999 com 13, chegando a 104 em 2002. No total 286.
Nutrição parenteral total - 493 em 2001 e 675 em 2002

Depoimentos evidenciam satisfação popular

Alcilene Oliveira Rodrigues é universitária, mora em Porto Acre e estava na última sexta-feira sentada no banco da recepção aguardando o agendamento de uma consulta. Ela é testemunha de que a Fundhacre vem melhorando através dos tempos, gostou da ampliação do ambiente da recepção e conta que houve tempo em que o pessoal chegava a dormir ao relento esperando uma oportunidade de fazer uma consulta. Ela reconhece que o atual sistema de agendamento para atendimentos é melhor. Antes - conta - era muita gente que vinha na esperança de ser atendida e voltava para casa; agora não, depois de agendado, o atendimento é garantido. Embora reclame da espera pelo agendamento, ela diz que, como não tem dinheiro para uma consulta particular não se incomoda de esperar desde que seja atendida.

Raimundo Elias Dias é chefe de peões numa fazenda em Xapuri. Na sexta-feira, ele esperava a hora de fazer um eletro, para identificar a origem de uma dor de cabeça que nos últimos tempos está lhe trazendo muitos aborrecimentos e sofrimento. Ele conta que há cinco anos atrás precisou dos serviços da Fundhacre, devido a uma queda sofrida por sua filha, na época, ainda um bebê. Na época, ele explica que embora tenha sido atendido, as coisas eram muito difíceis. De lá para cá ele, notou uma grande melhora no atendimento na Fundhacre e achou o ambiente da recepção muito mais confortável. “Quase não reconheci o ambiente atual – disse. Isto aqui mudou muito desde a última vez que aqui estive. Está tudo muito mais moderno”.

Carlos Alberto de Souza é dono de um lanche na entrada da Fundahacre e já vê novos dias para seu negócio depois que for inaugurado o prédio de conveniências já em fase final de construção e que deverá abrigar 9 lanchonetes que atende as pessoas que procuram a Fundhacre. Para ele, o governo está demonstrando grande responsabilidade para com a população ao fazer uma obra daquele porte. Ele cita como vantagens melhores condições de higiene do novo prédio além da comodidade do paciente, que espera um atendimento ou um agendamento. Além dos lanches ele explica que o novo prédio vai disponibilizar um caixa eletrônico e um cartório, tudo para facilitar a vida do cidadão. O cartório mais próximo fica na Estação Experimental.

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