
José Alencar pede compromisso dos empresários na defesa do meio ambiente
Vice-presidente emociona platéia ao contar como começou a vida “do nada” antes de se tornar um dos homens mais ricos do país
Altino Machado
O vice-presidente José Alencar, 71, apelou ontem, durante palestra aos empresários acreanos, no Teatro Plácido de Castro, para que haja mais sensibilidade e compromisso do setor produtivo com a defesa do meio ambiente e o desenvolvimento sustentado da região.
“A causa sendo boa, nós temos que abraça-la”, afirmou José Alencar, fazendo referências ao esforço do governador Jorge Viana de reconstruir o Estado, resgatar a auto-estima da população e criar espaço para que o desenvolvimento ocorra de forma sustentável.
“Na Amazônia, o caboclo é quem bem entende sobre reserva legal. Ele é quem sabe explorar as florestas. Ele não estraga as matas. Temos que aprender com eles para poder colher árvores sem matar as florestas”, acrescentou.
Ao se referir especificamente à opção do governador Jorge Viana pela florestania, o vice-presidente disse que “o desenvolvimento só tem sentido se nós não matarmos a vida”. “O desenvolvimento sustentado tem que ser aplaudido”, assinalou.
Quando presidiu a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG), José Alencar sofreu críticas dos empresários ao defender que os novos projetos do setor considerassem os impactos ambientais de cada atividade. Ele superou as resistências e acabou sendo condecorado como presidente de honra da FIEMG pela defesa do meio-ambiente
O vice-presidente disse que, do ponto de vista geoeconômico e geopolítico, o Acre deu um passo importante porque já sabe qual é a vocação natural para que seja promovido o desenvolvimento em á-reas nas quais haja característica adequada. “Não adianta fazer incentivo para uma atividade para a qual não haja vocação.”
A palestra do vice-presidente foi prestigiada por mais de 200 pessoas. Ele destacou aspectos da formação histórica do povo brasileiro e dos recursos naturais como garantias de que o país dispõe de potencial de crescimento econômico. “O país que possui um povo inventivo e tolerante como nós não tem como não dar certo”, declarou.
José Alencar se emocionou e comoveu a audiência quando, por insistência do governador Jorge Viana, começou a contar o começo de sua vida em Muriaé (MG).
O vice-presidente lembrou do primeiro emprego, aos 14 anos, quando teve que negociar com a dona de um hotel o valor da hospedagem. A voz ficou embargada e, depois de quase três minutos de silêncio, o vice-presidente conseguiu, com um lenço na mão para conter as lágrimas, concluir o relato de sua infância pobre.
Diferente da maioria dos vice-presidentes brasileiros, José Alencar costuma opinar com franqueza sobre os grandes temas nacionais e tem se movimentado constantemente pelo país. Ele considera o presidente Lula uma das pessoas mais inteligentes que conhece. “Eu seria o presidente se fosse mais inteligente que ele. O que quero dizer é que temos que aprender a respeitar as pessoas vitoriosas com honestidade”, explicou.
“Não há nenhum brasileiro mais correto, mais honesto, mais responsável, mais atuante, mais insuspeito para tratar dos interesses da sociedade, especialmente a menos favorecida, do que o presidente Lula. Nenhum de nós sabe defender o trabalhador e a causa social melhor do que ele”, afirmou José Alencar.
Depois da palestra,o vice-presidente e o governador participaram de um almoço com os empresários na sede campestre do Sesi. Antes de viajar para Belo Horizonte, o vice-presidente visitou a Escola Estadual Armando Nogueira, que foi construída no terreno da extinta Cila. Ficou admirado com o que viu. “Quem vier estudar aqui pode se considerar um privilegiado.”
O homem que veio “do nada”
O vice-presidente é chamado de “Zé Alencar” pelos amigos, entre eles Lula. Ele orgulha-se de vir “do nada”, como presidente. O nada em questão foi uma adolescência e uma juventude de trabalho duro, que o impediram de avançar além do ensino fundamental, mas que ensinaram a valorizar a produção e a desconfiar da riqueza nascida da especulação pura e simples do dinheiro.
“Eu já praticava responsabilidade fiscal aos 14 anos de idade”, orgulha-se. “Ganhava pouco como vendedor de uma loja de tecidos e tive que negociar minha hospedagem, em Belo Horizonte. Morava num corredor da pensão. Era o jeito para que a despesa não excedesse o salário.”
Dono do maior complexo têxtil do país, a Coteminas -16 mil empregos, R$ 1,4 bi em ativos e detentora de marcas famosas como a Artex, a Santista e a Calfat -, José Alencar não rejeita uma expressão que hoje soa quase como heresia para boa parte da elite, dos partidos e dos executivos do governo: desenvolvimento nacional.
“Claro que não somos xenófobos. Nacionalismo não é sinônimo de xenofobia, mas de interesse pelo país”, costuma explicar a quem questiona a atualidade dessas idéias, num mundo dominado por capitais e interesses sem pátria.