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Rio Branco - Acre, terça-feira, 15 de abril de 2003
Coverlândia Musical

Jorge Anzol

E lá estava eu na mesa do shopping, aquela que fica do lado da escada, que todos chamam de “mesa da galera” . Em um cantinho da praça de alimentação um músico com seu violão se prepara para começar atacar, ao ouvir parte dos acordes e melodia da primeira música, um sujeito empolgado se levanta e aplaude freneticamente. A música é Canteiros.

Diante daquela cena uma pergunta ficou na minha cabeça durante o resto da noite. O que foi que deu errado com a música? Por que em Rio Branco não existe uma cena musical? Na verdade um movimento feito por músicos, compositores, letristas, ou seja, pessoas ligadas à música.

A história está aí para mostrar. Tropicália, Mangue Beat, Rock de Brasília e tantos outros movimentos menos famosos são uma prova que a música se insere no contexto cultural do lugar contribuindo decisivamente para o seu crescimento.

Fiquei pensando, queria encontrar motivos para explicar o nosso retumbante fracasso, então vejamos:

Nos últimos 15 anos os sucessos da música acreana eram artistas e bandas que se limitavam a reproduzir com o máximo de fidelidade , objetivo este nem sempre alcançados, sucessos radiofônicos. Quem não se lembra da Banda Tropical com seu “groner pop star” Geraldo Leite, sucesso absoluto nos bailes de Rio Branco nos anos 80? Nos anos 90 é a vez do rock, a Banda Radicais Livres consegue um feito inédito. Lota por duas noites seguidas o Teatrão, com repertório cem por cento de cover’s que iam de Pink Floyd à Ultraje a Rigor.

Logo depois explode o pagode. É a vez da Sam Brasil, banda de pagode que mudou a história da música no Acre, até então nunca existira um conjunto musical com o nível de profissionalismo tão elevado. A banda chegou a gravar um CD em São Paulo, mas o forte mesmo era tocar com fidelidade impressionante as músicas das bandas de pagode que pipocavam em todas as rádios do país.

Tivemos também os que vieram de fora e construíram uma sólida carreira aqui. Álamo Kário e sua Conexão Amazônica agitavam a galera interpretando Legião Urbana , Ásia de Águia e Nirvana. Beko, um cantor do Pantanal, conhecido entre os músicos pela sua levada diferente e difícil de ser acompanhado. Encantava o público cantando Espanhola, Chalana e outros sucessos da MPB.

Enquanto isso, aconteciam algumas propostas interessantes, o Grupo Capu, formado pelos irmãos Clenilson e Clevison e o inigualável baterista “show man” Hermógenes, nadavam contra a correnteza. O Capu se mostrava irredutível quando o assunto era cover. Lembro-me de um RB Rock no Cine Teatro Recreio lotado de roqueiros ansiosos para ouvirem músicas do Metallica, Iron Maiden e Nirvana, vaiando o grupo por não tocarem músicas “famosas”. Tinha também o Kâmbio Negro, uma banda punk com suas letras de protestos (Cogumelos da Morte, País de Aluguel e a clássica RB Cidade do Tédio), eram algumas das composições do grupo que nasceu na casa da Dona Carmem Portela. Ponto de encontro da galera que curtia rock pesado.

Sei que alguém vai dizer: Existiram outros artistas com trabalho próprio. Tudo bem, mas quando comecei a sair na noite e acompanhar o movimento musical em Rio Branco Damião Hamilton, Tião Natureza, Felipe Jardim, Silvio Margarido e tantos outros já tinham chutado o pau da barraca, cansados de esmurrarem uma pontiaguda faca.

Hoje, timidamente podemos perceber o surgimento de algumas bandas com uma proposta mais definida, fazer suas próprias músicas e reler o trabalho de compositores acreanos. Pia Vila, Beto Brasiliense, Jairo Jonson, Tião Natureza, Sérgio Souto,....são freqüentemente revisitados por estas bandas. Os cover’s ainda estão lá, é quase impossível um artista sobreviver no mercado musical local tocando música própria. Mas eles já foram em maior número. Maluco da Mata, Caricatus, Tribo Soul, Los Porongas e Mapinguari Blues fazem parte desse movimento, em comum a vontade de verem nascer uma cena musical autêntica e forte em Rio Branco. Se vão obter sucesso na empreitada, talvez. O problema é que não depende só das bandas. De nada adianta uma produção artística de qualidade se o público não tem acesso a ela ou sequer sabe da sua existência. Os programas de entrevistas na TV estão lotados de políticos, nas rádios da cidade não existe um único programa que tenha como objetivo explícito divulgar a produção musical local. Nos jornais escritos a ausência de matérias sobre o que acontece na área musical é quase total.

Já está na hora de escrever algo sobre o movimento do HIP HOP que cresce na periferia, das bandas de heavy metal que fazem músicas com as letras em inglês (segundo os componentes é para atingir o mercado internacional), o fenômeno da música gospel no Acre, ou ainda, sobre o Pia Vila, um autêntico remanescente da era glacial, fantástico compositor acreano que sobrevive só Deus sabe como, cantando músicas como Rainha da Floresta, Aldeia Sideral, Rio Estranho e tantas outras. Mas do que nunca sinto uma resistência no ar. São mãos novinhas loucas para esmurrarem a faca.

E tudo é sintetizado em um verso de uma das músicas do Pia Vila:

“Eu não tô na prateleira,

eu não quero virar cera,

eu sou carne de terceira, viu!

Osso duro de roer”.

Baterista há 15 anos e professor de música. Já tocou nas bandas Kâmbio Negro, Radicais Livres, Encruzilhada Blues, Ponto G e atualmente na Tribo Soul.

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