
“É uma característica
da alma humana expandir-se, alastrar-se, desabrochar-se em todas as direções.
A maneira de se desabrochar, a maneira como ela deseja alastrar o seu ser
no cosmo tem como resultado a forma arquitetônica.”
(Rudolf Steiner)
Catedral Nossa Senhora de Nazaré
“É um monumento
que deveria ser reconhecido
pelo patrimônio histórico do Estado”
Rose Farias
Ao passar pela Catedral Nossa Senhora de Nazaré, no centro da cidade, poucos imaginam que ali se encontra erguida uma das raras obras do patrimônio histórico existentes na cidade.
A construção do lugar traz uma história que marca o sentido da separação definitiva entre espírito e matéria. Dentro da catedral, a devoção; fora dela, o trabalho na terra, a matéria, onde a natureza é o acesso ao mundo material e a religião é o vínculo com o mundo espiritual. Onde dá-se a necessidade de se construir a “Casa de Deus” - a catedral. E é especificamente dentro desses espaços que o povo evoca o mundo espiritual.
A obra de construção da Catedral Nossa Senhora de Nazaré foi anunciada com o lançamento da primeira pedra em julho de 1948, por ocasião da consagração episcopal, do Bispo dom Júlio Mattioli. Dois anos depois, 1950, a construção começou a ser erguida por parte da Prelazia do Acre-Purus.
O Padre André Ficarelli, um dos entusiastas do projeto explica que a iniciativa de Dom Júlio Mattiolli se relacionava ao fato de transferir a prelazia de Sena Madureira para Rio Branco, na época capital do Estado, o centro do poder.
“Dom Júlio entendeu que a igreja deveria estar centrada na capital do Estado. Catedral é a igreja do Bispo, e a palavra vem de catedra, que significa a cadeira de onde o bispo sentado fala ao seu povo”, enfatizou Ficarelli.
Na época, segundo relato feito por padre André, o lugar escolhido para erguer a obra era isolado, à beira do rio Acre, uma área livre, que pertencia ao seringal Empreza. Ali existia apenas uma casa de madeira de dois pisos, sede do dono do seringal. A área foi comprada pela igreja, e no lugar onde hoje se situa a Casa do Bispo, foi doada pelo proprietário do Empreza.
Uma inspiração no estilo antigo: o romano basilical
Segundo Ficarelli, a primeira planta da obra era a cópia de uma igreja existente em Santa Catarina, trazida por Dom Júlio Mattioli. Porém, mais tarde, antes de se iniciar os trabalhos, foi feita uma reflexão sobre a construção, tendo como base o crescimento da cidade e sua população.
“Foi pensado que o melhor era construir uma igreja maior, com vistas para o aumento da população de Rio Branco. Então, o bispo me pediu que fizesse uma nova planta. Na época estava recém-chegado da Itália, aqui não havia engenheiros nem arquitetos, somente mestres de obras que trabalhavam em várias construções”, disse Ficarelli, acrescentando que para mudar a planta buscou inspiração no estilo antigo denominado romano basilical.
“Vivi vários anos em Roma. E pensei que era melhor fazer uma igreja que fosse ampla, que tivesse bastante espaço para o povo, fosse também de fácil circulação e que o altar, o centro da igreja, fosse um lugar bem alto e visível em toda a parte. Então escolhi esse estilo”, explicou padre André.
Ficarelli conta que a igreja católica logo no início de Roma quando começou a crescer escolheu para a construção de igrejas, lugar de reunião dos cristãos, o estilo das basílicas romanas. Eram tribunais, onde o Estado exercitava a sua função.
“A igreja cristã assumiu esse estilo por ser de fácil construção e também por reunir um espaço bem amplo e arejado, dando aquele sentido de circulação e harmonia”, diz.
A Cruz - A Catedral Nossa Senhora de Nazaré segue o formato de cruz, com três naves, uma de circulação, o altar, que é um lugar amplo para a celebração e onde se situa a Catedra (a cadeira do bispo), o acesso para o povo na frente e alto, que simboliza segundo Ficarelli, o olhar sobre a cidade.
Vitrais levam nomes de famílias tradicionais
Um das raridades que compõem o conjunto arquitetônico da obra são os vitrais, feitos por uma fábrica especializada, Casa Conrado, de São Paulo, que não existe mais. Para adquirir os vitrais o padre André explica que foi feita uma campanha em 1961, 62 e 63 entre as famílias mais abastadas da capital. Por isso trazem uma curiosidade: está gravado o nome da família em cada vitral doado. Entre elas figuram os Ferranti, Abrahão, Zeque, Assmar, Isper e outras.
“A Catedral foi construída com a ajuda do povo. Acompanhei a construção até 1963. Ficou pronta como bispo Dom Giocondo. Mas, tudo estava em fase final, como as colunas, frisos, pisos e outros”, explica Ficarelli.
Ele acrescenta que a obra é tão bem acabada e firme, que nunca teve nenhum problema em sua estrutura, mesmo se situando próxima à beira do rio Acre.
“Ela não tem nenhuma rachadura e nunca deu nenhum problema é uma construção toda feita em tijolo maciço e feito por operários acreanos”, revela.
Uma outra curiosidade que faz parte da história da construção da catedral é que para fabricar os tijolos maciços, padre André relata que foi preciso construir uma olaria ao lado da igreja, onde a caieira para a queima foi feita dentro da própria igreja.
“Existiam olarias, mas como não tínhamos dinheiro, ao lado onde está o Sesc, que pertencia à igreja existia muito barro, então resolvi fazer a olaria e a caieira para queimar o tijolo dentro da igreja, que não estava completa. Foram feitas várias caieiras. Na primeira, nós queimamos seis mil tijolos, da própria caieira jogávamos os tijolos em cima das armações para construir”, remonta Ficarelli.
Comunidade participou da construção
A história da construção do grande templo é curiosa. A prelazia não tinha recursos para erguer a Casa de Deus. Padre André conta que as ofertas dos fiéis eram muito pequenas, então na década de 50 para 60, as quermesses de Nossa Senhora de Nazaré, celebradas no mês de outubro, serviram como meios para levantar a verba para a construção da catedral, que foi erguida em etapas.
“Era a única festa popular que havia aqui em Rio Branco na época. Toda a comunidade se mobilizava para participar dos arraiais da Paróquia de São Sebastião para recolher o dinheiro”, ressaltou Ficarelli, adiantando que no primeiro ano foram erguidos os alicerces, depois as paredes e o restante da obra, que teve seu final em 1959, quando foi coberta a igreja e transferida para o local a Paróquia de São Sebastião.
Acreano não dá o devido valor ao monumento
Para ele o povo acreano não está acostumado e não sabe apreciar o verdadeiro valor da obra.
“Isso é cultural. Mas, toda a vez que chegam pessoas de fora elas ficam admiradas em encontrar em Rio Branco uma construção deste tipo. Com todos esses arcos e colunas. É uma engenharia. Não é uma coisa muito simples de se construir. E nós não tínhamos engenheiros, apenas um mestre-de-obras e mão-de-obra local”, diz, acrescentando que um dos momentos emocionantes foi a construção dos arcos, que medem doze metros e não são de concreto armado. Foram feitos com armação de madeira.
“Fomos montando os arcos colocando os tijolos na armação, um a um, conservando a curva do arco. O mais emocionante é que depois de tudo feito, ficou um tempo com a armação de madeira. A emoção foi quando a gente desarmou o arco e não caiu. Ele é muito grande. A catedral Nossa Senhora de Nazaré, é uma obra de mais de 50 anos e hoje em dia corresponde a capacidade do povo se reunir, com capacidade para mil pessoas sentadas”, comenta.
Ficarelli ressalta que a catedral constitui um patrimônio histórico, um monumento que deveria ser reconhecido pelas autoridades acreanas.
Depredado - Um dos problemas pelo qual a catedral passa, segundo padre André se refere as condições dos vitrais, a única obra de arte que compõe o conjunto arquitetônico. A maioria estão quebrados e precisam de uma reforma urgente.
“As pessoas lançam pedras depredando o patrimônio. Os vitrais são pedaços de vidro cozidos, custam caro, montados em armações de chumbo. A fábrica nem existe mais. Precisamos consertar os vitrais. Acredito que o governo que tem o setor de patrimônio histórico poderia se engajar na recuperação dos vitrais, fazendo um levantamento para preservar este patrimônio. Fiz este levantamento há uns anos atrás e é muito caro. Mas seria interessante recuperá-los como parte do patrimônio do Estado”, finalizou.