© Copyright Página 20 todos os direitos reservados
Rio Branco - Acre, quinta-feira, 17 de abril de 2003

Vendendo o peixe

Raimundo Ferreira de Souza

A Páscoa do ano passado caiu no final de março. Neste ano, na segunda quinzena de abril e no ano de 2010 será a partir de 4 do mesmo mês. Ou seja, com o passar do tempo, mesmo havendo opiniões e fatos históricos que contestem, foi fixada a data do nascimento de Cristo (25 de dezembro), porém, quanto à morte, ficou condicionada ao final da folia momesca, quarta feira de cinzas, quando se inicia o período de quarenta dias (quaresma), para se chegar ao dia da Paixão, morte e ressurreição de Jesus de Nazaré.

Para o catolicismo, mesmo durante a quaresma, intensificando-se nos "dias grandes", esse deve ser um período em que o cristão deve buscar a purificação dos pecados através de penitências, jejum e outros sacrifícios que contribuirão para sua libertação espiritual.

O ritual da Páscoa, por sinal, girando quase exclusivamente em torno das programações comerciais de toda natureza, muda de um país para outro. No Brasil, além da programação religiosa, que se inicia no Domingo de Ramos com a celebração da entrada de Jesus em Jerusalém, benção dos ramos que simboliza a videira, árvore de Jesus; cerimônia do lava-pés, na quinta-feira, simbolizando a humildade; celebração da palavra e reprodução da via-sacra na sexta-feira; vigília Pascal no sábado de aleluia e celebração da ressurreição de Cristo no domingo, os festejos são comemorados para quem tem condições financeiras de adquirir degustando peixe, chocolates e tomando um bom vinho.

Outros países, de acordo com sua cultura, incluem outros rituais - por exemplo, na Bulgária levam para a igreja muitos ovos e após a missa da meia-noite, de sexta para sábado, fazem um ritual de quebrar ovos nas paredes da igreja e terminam jogando os ovos uns contra os outros, acreditando que aquele que sair mais melecado terá um ano de muita sorte. Se traz sorte ou não, faz-se necessário observar o "enlambuzado" no decorrer do ano. De imediato, o que se poderá contatar será a nojeira e cheiro de ovo.

O México faz uma grande festividade em torno da malhação do Judas ao meio-dia do domingo de Páscoa. Esse ritual, apesar de estar sumindo da tradição, ainda acontece com grande participação popular, principalmente no Nordeste brasileiro. O boneco Judas faz a alegria do povo satirizando alguém, pois traz no testamento, que é lido publicamente no momento de ser sacrificado, uma divisão de seus bens entre as pessoas da comunidade e, para a brincadeira ser mais interessante e também picante, os herdeiros do espólio do Judas sempre são pessoas influentes na localidade.

As comemorações da Semana Santa, em vários países e dentro do país em diversas localidades, são ritualizadas de formas diferente. Mesmo porque a cultura local contribui para modificar os ritos da fé e, de certa forma, as influências culturais emanadas dos meios de comunicações e a proliferação de outras religiões não-católicas e até os regimes políticos estão contribuindo, sobremaneira, para desmistificar as manifestações culturais, incluindo os tradicionais rituais de fé e meditação. Por exemplo, nessa semana em que, no Brasil, de alguma forma, somos envolvidos pela igreja Católica, pelos símbolos religiosos, pelos festejos católicos, pelas propagandas comerciais, entres outras manifestações, no país de Fidel, essa semana passa igual a outra qualquer, sem qualquer dispensa do trabalho, sem qualquer ritual fora do habitual nas igrejas e sem o apelo incessante para se adquirir os subprodutos do coelho da Páscoa.

A igreja Católica sustenta a tradição de que nessa semana, especialmente quinta e sexta, não se deve comer carne vermelha (quem assim proceder estará incorrendo em pecado). Os vendedores de peixe sustentam a afirmativa de que é pecado comer peixe na semana santa. Os consumidores, especialmente os seguidores dos conselhos doutrinários, ficam num grande dilema: se não fosse proibido comer carne nesses dois dias, ia ser na base do filé, mas não sendo possível degustar essa nobre iguaria bovina, a coisa se complica, pois o dinheiro do filé só dá para comprar meio quilo de piaba de açude. E aí, como fica a vida do barnabé, correndo o risco de pecar?

Amazônia
Colunas
Cotidiano
Expediente
Entrevista
Editorial
Estilo
Especial
Esporte
Política
Principal