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Rio Branco - Acre, quinta-feira, 24 de abril de 2003

Alex Bellos

“Rio Branco está irreconhecível”

ALTINO MACHADO

O jornalista Alex Bellos, 32, é correspondente dos jornais ingleses Guardian e Observer, no Rio de Janeiro, onde mora há cinco anos.

Alex Bellos veio ao Acre pela primeira vez em outubro de 1998, para escrever uma reportagem sobre os 10 anos do assassinato do líder sindical e ecologista Chico Mendes.O jornalista esteve em Rio Branco na semana passada se preparando para escrever uma longa reportagem sobre religiões na Amazônia, com foco na doutrina do Santo Daime.

Na segunda passagem pelo Acre, Bellos ficou encantado com as mudanças ocorridas em Rio Branco desde que visitou a cidade há cinco anos. “Rio Branco está irreconhecível”, afirmou.

Segundo Bellos, Rio Branco não chega a ser uma cidade próspera, mas está mais próspera do que era há cinco anos. “O Parque da Maternidade é uma coisa da Europa. Essa obra me fez lembrar da Alemanha.”

Leia a entrevista a seguir.

Quando nos encontramos pela primeira vez, há cinco anos, você estava há sete meses no Brasil. O que mudou?

Mudamos eu e o Brasil. O grande passo que dei foi o de escrever um livro. Fui procurado, em 2000, por uma editora inglesa para fazer um livro sobre o futebol. Recusei com o argumento de que não sou jornalista esportivo, mas a editoria contra-argumentou querer o livro escrito por mim porque não sou jornalista esportivo. Respondi então que faria o livro do meu jeito, usando o futebol como grande metáfora do Brasil.

Qual foi a sua grande “sacada” do Brasil ao fazer o livro?

Quando cheguei ao Brasil, cinco anos atrás, todo mundo falava que este era o país do futebol. Mas eu perguntava o que isso quer dizer. Nesse sentido, o livro é o resultado de uma investigação para responder essa pergunta. O futebol é o grande microcosmo do país. Através do futebol, no livro, eu mostro como se pode ver o sincretismo religioso, a situação política, a história, a antropologia, a arte.

Qual foi a repercussão do livro no meio futebolístico? Ronaldinho, por exemplo, leu o livro?

Os grandes jornalistas, graças a Deus, leram o livro e gostaram. O Juca Kfouri gostou bastante. Não sei se jogador de futebol lê muito. Dei para o Ronaldindo e Milene por intermédio do assessor de comunicação deles.

O futebol é mesmo a expressão brasileira?

Sim. Quando a Seleção entra em campo o povo não encara como a entrada de onze jogadores, mas como o Brasil entrando em campo. Ali está a mistura de raças, a juventude, a alegria, o país mal organizado. Quando se fala de futebol no Brasil não se fala do jogo em si, mas do jeito de torcer. Então eu investiguei o que é o jeito brasileiro de torcer e acabei desfilando na Gaviões da Fiel, no carnaval de São Paulo. Lá, existe a torcida que vira espetáculo. Isso não acontece em país algum. Torcer pelo Brasil e gostar de futebol faz parte da identidade brasileira, mas isso não é assim em quase todos os outros países do mundo. A Inglaterra adora futebol, talvez tanto quanto o Brasil, mas o esporte não faz parte da identidade britânica. O que faz parte da identidade britânica é ser pontual e tomar chá.

Você comparou os “hooligans” às torcidas organizadas brasileiras?

Sim, comparei. Os “hooligans” estão muito ligados à bebida e às classes trabalhadoras. Bebem muito para dar porrada. Quem é “hooligan” não assume. Quem é “hooligan” se esconde na muvuca para poder fazer o que bem entende. No Brasil é diferente. As torcidas organizadas, como a Gaviões da Fiel, por exemplo, têm sede, cartão de visitas. Os casos de violência que eu vi no Brasil são de torcidas organizadas contra o próprio clube. Isso é uma coisa impensável na Inglaterra. Os “hooligans” são muito racistas e gostam de bater em quem é de outro país. “Holligan” é uma coisa tipicamente inglesa, mas causa muita vergonha para o que não são “hooligans”.

Qual o capítulo que deu maior satisfação em fazer?

O livro tem dois capítulos sobre a Amazônia. O que mais gostei foi sobre um torneio que existe em Manaus, chamado Peladão. É um campeonato organizado pela mídia local, que tem uns 30 anos. Participam cerca de 800 times, todos de Manaus. Deve ser o maior campeonato de futebol do mundo. Esse torneio mobiliza mais gente do que o campeonato profissional. Além disso, todo time tem uma rainha. O time não pode participar sem sua rainha. Todas essas rainhas desfilam durante o torneio, o que é maravilhoso. Imagina o desfile de 800 mulheres, todas selecionadas pela beleza. Demora quase meia hora para que todas elas apenas andem pelo palco. Todas, juntas, abraçam o estádio Vivaldão. É fantástico e absurdo, mas muito legal tudo isso. Outro aspecto maravilhoso é que se o time cai, mas a rainha alcança uma boa colocação, isso possibilita que o time vá para a repescagem. Já aconteceu de um time ser eliminado, mas voltou por causa da rainha e acabou sendo vencedor do torneio. Então, os dirigentes dos times têm que se preocupar tanto com os craques quanto com as rainhas. Também não têm que comprar apenas chuteiras para os jogadores, mas também biquínis, e contar com o apoio de um bom salão de beleza para enfeitar a rainha.

Qual outro capítulo que foi legal escrever?

Gostei muito de escrever sobre Pelé e Garrincha. Na Inglaterra todo mundo sabe quem é Pelé. Ninguém sabe quem é Garrincha. Quando cheguei no Brasil pela primeira vez, no Rio, comecei a falar sobre Pelé, que é um ícone. Porém, todo mundo dizia: Pelé não é nada. O gênio era Garrincha, que deu os dribles e entregou a bola para Pelé fazer os gols. Então eu comecei a me interessar pela pesquisa sobre a vida de Garrincha. Acho que a história dele é uma das mais incríveis do futebol mundial. Nunca ninguém veio de tão baixo e foi para tão alto quanto ele. Escrevi então um capítulo sobre Pelé e Garrincha, mostrando como ambos eram ícones da mesma era. Pelé era superprofissional e hoje é um próspero homem de negócios. Garrincha foi o último jogador completamente amador. Jogava porque gostava de jogar. Talvez esse tenha sido o capítulo mais bem construído, com a melhor história. Os ingleses adoraram esse capítulo porque desconheciam Garrincha, que veio antes da época da televisão. As pessoas lembram bem do Brasil porque, na Inglaterra, a Copa de 70 foi a primeira transmita em cores.

Quando visitou o Acre pela primeira vez, em 98, você veio escrever sobre Chico Mendes. E agora?

Ao escrever o livro, não ganhei dinheiro, mas isso está me abrindo as portas para me envolver com projetos mais pessoais e interessantes. Uma das primeiras propostas que recebi depois do livro foi escrever uma reportagem mais longa sobre religião na Amazônia. O foco dessa matéria é sobre o Santo Daime.

Pelo visto, você deixará de ser correspondente do Guardian e do Observer no Brasil para ser escritor. Ou não?

Acho que estou fechando um ciclo no Brasil. Estou aqui há cinco anos, não casei, não criei raízes. Estou precisando de um tempo na minha terra. Acho que vou voltar para passar uns seis meses na Inglaterra. Aqui aprendi muito, que as coisas estão mudando, mas levam mais tempo do que a gente espera. Pela primeira vez em cinco anos a política está ficando interessante. Nesse tempo todo nunca escrevi sobre política porque não tinha nada mesmo a escrever sobre esse tema. Agora, com o novo governo, a política ficou interessante.

Por quê?

Porque temos possibilidades de grandes mudanças. Pela primeira vez, as pessoas que eram da oposição estão no poder. As chances de mudanças verdadeiras são menores porque a situação financeira no mundo é ruim. Mas, simbolicamente, tem muita mudança. Aqui mesmo dá pra sentir isso. Rio Branco está irreconhecível. Estou aqui pela segunda vez e pude observar muita mudança positiva: a estrada de acesso ao aeroporto, cyber café, clínicas de cirurgiões plásticos e muitos escritórios de advogados. Não lembro dessas coisas na última vez que estive aqui. Rio Branco não chega a ser uma cidade próspera, mas está muito mais próspera do que era. O Parque da Maternidade é uma coisa da Europa. Essa obra me fez lembrar da Alemanha.

Qual a imagem que o inglês tem da Amazônia?

O inglês não sabe quase nada da América do Sul. Sabe que o Brasil é um país bom de bola, que a Amazônia é uma selva ameaçada, mas o inglês não sabe diferenciar o Acre de Roraima ou o Amazonas do Pará. Mas existe na Inglaterra um interesse enorme pelo desenvolvimento sustentável. Muitas organizações não-governamentais de lá trabalham aqui com dinheiro de lá. Mas a imagem que prevalece é a de que a Amazônia continua sendo destruída.

Autor reconhecido

Alex Bellos é autor de “Futebol: o Brasil em Campo”, livro sobre o Brasil mais vendido ano passado na Inglaterra, onde se encontra na terceira edição.

O livro já foi negociado para a Itália, a Holanda, os Estados Unidos, a Finlândia e o Japão. A crítica, dentro e fora do Brasil, se derramou em elogios à obra: “Um grande livro... O público brasileiro terá muito a aprender com essa visão ‘estrangeira’ do país”, afirmou Ruy Castro, do jornal O Estado de S. Paulo. “Algumas das mais belas páginas dedicadas ao futebol brasileiro nas últimas décadas”, disse Arthur Dapieve.

Em visita à livraria Paim, quis saber de uma vendedora por que havia apenas um exemplar do livro. A moça retrucou querendo saber o motivo do questionamento. Quando Alex Bellos explicou que era o autor do livro, ela o olhou da cabeça aos pés e respondeu com uma pergunta lacônica: “Ah, é?”.

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