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Rio Branco - Acre, sábado, 26 de abril de 2003
Ultraje sem rigor

Francisco Dandão

Um dia após o outro, sempre com uma noite no meio, os ponteiros do relógio correndo para a frente inexoravelmente e a gente vai ficando cada vez mais velho. Ao mesmo tempo em que essas coisas todas acontecem, radicais livres a todo vapor, vamos perdendo o respeito, principalmente dos meninos.

Imaginem só vocês que num final de tarde desses, numa rodinha de maníacos por futebol (entre os quais o Márcio Batista, presidente do Sinteac, e o Inácio Moreira, homem forte da Secretaria dos Esportes), instigado por eles eu me danei a contar histórias pitorescas dos boleiros de antigamente.

Bons ouvintes, mal eu acabava de contar uma história e eles (às vezes um, às vezes o outro) puxavam um outro tema. Queriam saber de quase tudo: se tal sujeito tinha jogado o que se dizia dele, se tal gol em tal época foi mesmo ilegítimo, se tal dirigente aprontava nos bastidores, se isso, se aquilo.

Num meio desses de gente atenta e querendo saber das coisas, eu me soltei legal. Contei muito do que eu sei de piadas envolvendo ex-jogadores. Aqui e ali, é certo, andei acrescentando alguns detalhes, aumentando outros, mas tudo com um certo fundo da mais pura e cristalina verdade.

Gols absurdos perdidos (como aquela bola que o Amenu chutou para fora, da marca do pênalti, contra o Atlético, nos anos 70, sem goleiro), gols contra (como os vários do Joraí), frangos inexplicáveis (como os que o Pituba engolia à noite, por deficiência de visão). Um monte de histórias, enfim.

A minha corda estava tão solta que num certo momento eu tratei até de explicar os motivos da recente desclassificação do Rio Branco do Torneio da Integração da Amazônia para o CFA. “É que sendo Semana Santa só se podia comer peixe. E o goleiro Máximo teimou em jantar perus”, disse eu.

Pois muito bem. Teria sido um anoitecer perfeito se depois de várias potocas e mais infinitas gargalhadas, o Inácio não resolvesse, dado o meu conhecimento de futebol, resolvido me convidar para uma pelada que ele e mais uma turma de amigos jogam todos os domingos, às cinco da manhã.

Cinco da manhã? Isso mesmo. Fiquei ofendido. Senti-me agredido. Um verdadeiro ultraje (e sem “rigor”). Às cinco da manhã de domingo, nem uma missa rezada pelo Papa consegue me tirar da cama. Aliás, imagino que o Inácio sabia disso e o convite foi só para me sacanear. Deve ter sido, sim.

fdandao@zipmail.com.br
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