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Rio Branco - Acre, sábado, 26 de abril de 2003

Fernando Garcia

“Há uma força na sociedade acreana que soube resistir ao processo de colonização”

O acreano Fernando Garcia, 54 anos, mora na Paraíba há 25 e agora está se reabastecendo de acreanidade, um sentimento que ele define como um reencontro com sua própria história. Fernando é engenheiro de produção, com mestrado e doutorado em economia e sociologia. Na Paraíba é professor titular da Universidade Federal de Campina Grande, além de desenvolver um forte trabalho ligado aos movimentos de reforma agrária e demarcação de terras, experiência que levou do Acre no início dos anos 60. Aqui, participou de movimentos indígenas e outras ações culturais que ganharam força naquela época.

Fernando Garcia é também profundo conhecer do processo de urbanização e surgimento da periferia de Rio Branco. Ele desenvolveu uma tese de mestrado sobre o assunto e a defendeu na Paraíba. Na entrevista concedida aos jornalistas Elson Martins e Maracimoni Oliveira, Garcia relembra do Acre que conheceu há 25 anos, enfatiza a resistência e identidade do povo acreano e destaca o desenvolvimento do Estado hoje.

Como você está vendo Rio Branco agora?

A coisa mais marcante em Rio Branco é realmente o Parque da Maternidade. Esse parque talvez tenha sido o melhor presente que a cidade recebeu e se tornou um marco por vá-rias razões. Primeiro porque é muito bonito e depois porque, ao contrário do que acontece na maioria das cidades, em que geralmente se privilegiam automóveis, no Parque da Maternidade as pessoas estão em primeiro plano. O parque é muito mais bonito do que os carros. A idéia é preciosa. Por outro lado, a periferia continua crescendo. Houve de fato uma grande expansão da periferia e nisso Rio Branco não é diferente do resto do Brasil. Infelizmente o que cresceu com as cidades brasileiras foram as periferias. É quase como um processo de urbanização. E ter periferia significa não ter infra-estrutura e condições de moradia.

Você acompanhou o início da migração nos anos 70 e essa inchação da periferia de Rio Branco. Em se tratando de mudanças, alguma coisa o surpreende ou era esperado?

A memória que eu tenho de Rio Branco não é só da minha infância, mas em termos comparativos com o Nordeste. Aqui tem muito menos menino de rua do que em Campina Grande, a cidade onde moro. Eu me sinto muito mais seguro andando em Rio Branco, não só porque me é mais familiar, apesar de morar lá há tempo, mas também porque aqui é mais seguro. Por exemplo, Campina Grande, que é uma cidade do interior, vive um processo de verticalização. As pessoas estão abandonando suas casas para ir morar em apartamento. Estão sendo construídos dezenas de prédios. O fator decisivo para as famílias morarem em apartamento é a segurança. Gosto de vir a Rio Branco, e certamente não sou uma exceção, pelo sentimento de pertencer, de ter nascido aqui. Esse acreanismo, essa acreanidade é uma coisa muito forte e decisiva para mim. O que me trouxe agora, por exemplo, foi a vontade de ver meu pai, meus familiares. Isso está dentro de um contexto de que vir aqui é me abastecer emocionalmente. Encontrar as pessoas na rua e nos reconhecermos. Cada retorno é um processo valioso de reencontro com a minha origem e história pessoal.

A cidade desenvolveu muito nesses 25 anos que você saiu daqui?

Sim. É bom ver que algumas coisas estão melhores. Os bons exemplos são essas obras públicas, o Parque da Maternidade, a Gameleira, o Rio. Não é tão freqüente a gente ver coisas feitas com capricho. É muito positivo ver todo esse esforço de evolução de boas coisas para a população.

Você identifica esse sentimento de acreanidade lá na matriz: o Nordeste?

No Acre isso é muito simples. É claro que temos uma marca dos nordestinos. Só que os nordestinos que chegaram aqui se adaptaram à região, incorporaram elementos da cultura deles com o indígena, das condições de vida da floresta.

E o Acre é uma grande síntese disso.

Você começou a testemunhar o conflito pela terra e a chegada dos “paulistas”. Percebe nessa Rio Branco que vê hoje a influência dos forâneos?

Não. Visto de fora, aí podemos comparar com Rondônia, nunca os estrangeiros se apoderaram do poder político local. Eu acho que o Acre preservou sua identidade. Houve uma capacidade de resistência e o controle do Estado permaneceu nas mãos dos acreanos e isso só aconteceu porque se apoiou em alguma coisa real. Há uma força na sociedade que soube resistir ao processo de colonização. Os acreanos não se deixaram colonizar. E isso tem a ver com uma resistência que veio do interior.

Na Paraíba você continua muito próximo ao movimento rural, que diferença você percebe entre o movimento pela terra no Acre e no Nordeste?

Tenho que ser cauteloso ao fazer essa comparação porque estou há 25 anos fora daqui. Minhas vindas aqui foram muito espaçadas e não dá para ter um acompanhamento. Mas tem uma característica que me chama atenção aqui no Acre que favoreceu um processo de renovação das lideranças políticas do Estado. A crise do seringal foi uma coisa muito profunda. A elite seringalista desapareceu e isso permitiu que novos atores viessem substituir essa elite. O exemplo nordestino é o oposto disso. Os latifundiários, os coronéis nordestinos, ainda que o coronelismo tenha se transformado e entrado em um processo de decadência do sistema gado-algodão culminando com o fechamento das usinas de açúcar que se transformaram em assentamentos rurais; a elite lá protege a propriedade da terra, sabe se apropriar de todas as políticas públicas federais. Lá a elite perdeu o poder econômico, mas não perdeu o poder político e a dominação sobre a população. O movimento de resistência se depara com uma elite no poder, enquanto que aqui, de forma mais acentuada do que no Pará e no Amazonas, a borracha não teve um sucedâneo, como a Castanha no Pará, por exemplo. No Acre a crise da borracha foi fatal para a elite seringalista. E esse processo favorece o surgimento de novos atores. Os seringueiros e seringais autônomos é exatamente isso.

Pode-se afirmar que a imagem do Acre nesse início de século é boa?

Em geral as regiões mais distantes são pouco vistas. O fato que torna o Acre mais famoso é a morte de Chico Mendes. Podemos dizer que existe o Acre antes e depois da morte de Chico Mendes. Quando ele morre tem uma atenção nacional para o Acre e isso se mantém. Se o Chico Mendes fosse alguma coisa isolada, sem referência, talvez essa atenção fosse muito mais efêmera. Depois disso vem o Conselho Nacional de Seringueiros, personagens como a Marina Silva. Ela efetivamente é símbolo em nível nacional e internacional. Há um tempo atrás a imprensa destacou que numa viagem que a Marina fez aos Estados Unidos ela foi recebida pelo vice-presidente, enquanto que o ACM vai lá e ninguém dá bola. O Acre tem esse destaque pela nossa história de resistência. E isso dá uma visibilidade para o Estado.

Como você pensa e vê o sentimento de acreanidade?

É uma identidade. O Acre tem personalidade e os acreanos sentem e percebem isso. É um conjunto de coisas quem vem desde a proximidade com a floresta e tem a ver com a nossa história. O Acre teve uma revolução. Tivemos um processo de colonização nordestina. Aprendemos na escola a nos orgulhar dos acreanos, então nordestinos, que lutaram para defender esse pedaço de território. Além disso existe o componente cultural, ou seja, da síntese que somos, das diversas influências junto com a cultura indígena. Uma expressão muito forte disso é o Santo Daime. São elementos que fazem parte de um conjunto. Desse sentimento de acreanidade.

O Estado evoluiu culturalmente?

Acho que sim. Com o processo de globalização e a influência da televisão, houve a necessidade de afirmação dos valores locais que está se tornando mais aguda. A gente percebe muito um processo de valorização das expressões locais. Surge a necessidade de buscar suas próprias raízes. E isso se passa aqui. Temos uma força cultura muito grande

O que você acha que precisa melhorar em Rio Branco?

Toda cidade tem que oferecer um conforto para seus moradores. Pegamos o exemplo dos camelôs. Por uma questão de desemprego, as praças foram ocupadas por ambulantes, por uma questão comercial que não estava prevista. Isso tem aqui, em São Paulo, no Rio de Janeiro...

A questão do trânsito também é outro fator. As ruas de Rio Branco são estreitas demais para tanto carro. Está muito perigoso andar a pé na cidade. Existe um problema de reorganização do trânsito, mas Rio Branco tem algumas vantagens que outras cidades não tem, que é esse contato com a natureza.

Do que você tem mais saudade do Acre?

Eu tenho muita saudade das pessoas, do aspecto familiar. A paisagem também é decisiva. Estranho muito morar numa cidade que não tem rio. Um rio marca a vida da gente. Sinto falta da liberdade que eu tinha na infância. E infelizmente isso se perdeu. Os espaços de lazer estão limitados. Na minha época as ruas eram espaço para o lazer.

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