
Enock da Silva Pessoa *
Este é um resumo da minha tese de doutorado em Psicologia Social, defendida em 21 de março de 2003 na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, na qual são estudadas as crenças, as atitudes e os comportamentos políticos de lideranças evangélicas no Acre nas eleições de 1998 e 2002.
Defendo que as origens dessas crenças remontam aos movimentos sociais religiosos europeus, os quais contribuíram para a formação da democracia liberal dos países ocidentais, além de fornecer a matriz ideológica unificadora e dos rumos que os evangélicos brasileiros têm tomado: as Reformas Luterana e Calvinista, o comunitarismo dos anabatistas e as lutas pelos direitos humanos e pela democracia feitas pelos evangélicos da Dissidência Inglesa do século XVII.
Utilizei os referencias teórico-metodológicos da complexidade de Edgar Morin, através dos quais defendo a ética da solidariedade humana a partir da análise dialógica da totalidade biológica, ecológica, cultural, social e ideológica do ser humano; a noção de mente aberta e fechada (dogmatismo) de Rokeach e as categorias hipotéticas de origem, manutenção e conseqüências da religião de Beit-Hallahmi & Argyle.
A hipótese central foi confirmada: os evangélicos em geral estão progressivamente ganhando maior consciência política e de cidadania, com destaque para os históricos que demonstram maior proximidade ideológica com o espírito da Reforma Protestante. Os discursos ideológicos, éticos, políticos e eleitorais das lideranças pesquisadas foram estudados através da análise das formas e dos motivos de sua participação nas eleições de 1998 e 2002. A pesquisa de campo comparou 114 líderes evangélicos históricos (batistas e presbiterianos), pentecostais (Assembléia de Deus, Congregação Cristã no Brasil, Igreja do Evangelho Quadrangular, etc.) e neopentecostais (Igrejas: Internacional da Graça e Universal do Reino de Deus) no Acre.
Os resultados evidenciaram que houve um crescimento positivo dos grupos em forma de maior consciência e envolvimento em cidadania e participação política. A análise de conteúdo das entrevistas mostra que: a) as lideranças evangélicas históricas se posicionam politicamente mais à esquerda, têm maior nível educacional, maior renda, mais tempo de filiação religiosa e são mais favoráveis à entrada de evangélicos na política; b) os pentecostais têm renda, grau de instrução, tempo de filiação religiosa média e também preferem mais candidatos de partidos de esquerda; c) os neopentecostais respondem às questões políticas de modo mais religioso, manifestam crenças mais negativas na política e são menos favoráveis à participação de evangélicos em atividades político-partidárias. Eles têm maior preferência por candidatos de partidos de direita. Quanto maior o nível educacional maior é a tendência à preferência dos entrevistados por partidos de esquerda. Os homens tendem a escolher mais os partidos de esquerda que as mulheres, cuja maioria preferiu não declarar seu voto.
A tensão e as contradições entre o dogmatismo sectário e a tolerância religiosa, que têm seus reflexos na política, continuam, portanto, a marcar e redirecionar as crenças, atitudes e comportamentos dos evangélicos no Acre.
* Professor do Departamento de Filosofia
e Ciências Sociais da Ufac