
Geraldinho diz que seu relatório sobre o caso dos grampos deve ser aprovado
Senador está de consciência tranqüila com a postura que tomou como relator do processo
Válber Lima
O senador acreano Geraldo Mesquita Júnior (PSB) roubou a cena ontem ao desembarcar no Aeroporto Internacional de Rio Branco. Nem o senador Tião Viana (PT) ou o novo superintendente do Incra, Raimundo Cardoso de Freitas, entre outras figuras públicas que vieram no mesmo vôo, chamaram tanto a atenção dos repórteres que fazem cobertura na chegadas dos vôos. É que ele está sendo a peça fundamental no desenrolar do episódio da possível cassação de mandato do poderoso senador baiano Antôonio Carlos Magalhães (PFL), acusado de ser o responsável pelo escândalo dos grampos na Bahia.
Ainda na porta da sala de desembarque do aeroporto, Geraldinho foi cercado pelos repórteres que só tinham uma pergunta a fazê-lo: “O senhor acredita na cassação de ACM?”. Comedido, o senador respondeu: “Acho que ele deve ser punido com uma pena apropriada aos erros que cometeu”.
Geraldinho disse que está de consciência tranqüila com a postura que tomou durante todo o tempo como relator do caso dos grampos. E atribuiu a função que lhe foi conferida ao senador Tião Viana, a quem considera o grande articulador no Senado. Mas para os companheiros de partido que foram recebê-lo no aeroporto a verdade é que Geraldo Mesquita mostrou a que veio no seu primeiro grande desafio no Senado Federal.
“Acredito que o meu relatório final deve ser aprovado pela maioria dos companheiros porque as evidências são muito graves e o nosso dever é zelar pela ética e lisura nos órgãos públicos. Essa é a nossa luta para construir um país melhor”, afirmou.
Como relator do caso dos grampos ilegais ocorridos na Bahia nas eleições do ano passado, o senador Geraldinho Mesquita decidiu pedir a abertura do processo de cassação do senador baiano por considerar que ele “infringiu o decoro parlamentar”.
Durante toda a semana que passou, Geraldinho ocupou também destaque na mídia nacional como relator do caso. Na última terça-feira, no Conselho de Ética, leu seu relatório para uma platéia lotada de senadores, deputados e jornalistas. Assinalou não ter dúvidas de que o chamado “Rei da Bahia” utilizou, como parlamentar, informações “sabidamente obtidas mediante a prática de um crime”. Ou seja, segundo o senador acreano, ACM participou, sim, do processo de escutas telefônicas ilegais feitas pela polícia da Bahia com políticos adversários.
O relatório do senador acreano será votado na próxima sessão do conselho, prevista para ocorrer nesta terça-feira, dia 29. Só não foi votado semana passada porque vários senadores, entre os quais Demóstenes Torres (PFL-GO) e Sérgio Guerra (PSDB-PE), pediram vistas do relatório em que o relator afirma estar “convencido da gravidade do ato praticado” por ACM ao divulgar informações obtidas por escuta telefônica.
O que foi a Operação Mãos Limpas?
A Operação Mãos Limpas foi a ação de um grupo de magistrados da cidade de Milão que investigou a ocorrência de casos de corrupção em instituições públicas e financiamentos ilegais aos partido. O trabalho da Operação Mãos Limpas teve início em fevereiro de 1992, a partir de informações concedidas pela ex-mulher de Mario Chiesa. Ela estava em litígio com o ex-marido por não receber a pensão alimentícia a que tinha direito. Integrante do Partido Socialista e presidente do Asilo Público para Idosos Pio Albergo Trivulzio, Chiesa fora flagrado recebendo propina de US$ 4 mil paga por uma empresa favorecida na concorrência para limpeza do asilo.
Com os depoimentos de Chiesa e os documentos recolhidos no processo, o caso tomou grande dimensão na Itália e suscitou diversas outras denúncias. Foram envolvidos dois ex-prefeitos socialistas de Milão, amigos do ex-primeiro-ministro Bettino Craxi. Também foram descobertos casos de corrupção nas obras do metrô e do aeroporto daquela cidade. As investigações levaram à dissolução do principal partido político italiano, o Democrata Cristão, no poder desde a Segunda Guerra Mundial.