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Rio Branco - Acre, sábado, 26 de abril de 2003
Armado de palavras

Ex-militante da utopia armada no Araguaia, o presidente do PT, José Genoino, agora é guerrilheiro das reformas. Diz-se que pretende ganhar (e não derrotar) os setores resistentes do partido brandindo apenas argumentos. Que não pretende enquadrar companheiros mas convencê-los de que as reformas vêm para corrigir iniqüidades a seu ver inaceitáveis por quem se diz de esquerda.

Competente no debate o PT sempre foi, como se viu na oposição que moveu contra reformas semelhantes do governo FH. Mas isso vale tanto para Genoino e os moderados como para os que resistem à reforma previdenciária. Um arsenal de palavras será então usado nesta batalha. Hoje, ao de Genoino.

Aos que acusam o PT de ter perdido a alma e a memória, ele diz carregar na pasta três documentos a favor da reforma da Previdência:

— A resolução do Diretório Nacional de 20 de janeiro de 1996 defendeu um regime unitário para todos os trabalhadores, com benefício mínimo de um salário-mínimo e máximo de dez. E ainda a previdência complementar pública, através de fundos fechados, para quem quiser complementar a aposentadoria. A mesma proposta aparece no programa de Lula de 2002. Em março, já sob minha presidência, o diretório aprovou resolução a favor da isonomia de direitos, assegurando que "os aposentados e pensionistas do regime geral (INSS) serão isentos de qualquer contribuição".

(Os "outros" não reconhecem tais documentos como fruto de decisão partidária e acham que Genoino sofisma quando faz da isenção para uns a aprovação da taxação para os servidores inativos).

Sobre a questão da iniqüidade:

— Qualquer pessoa inteligente e honesta enxerga a injustiça destes números: o INSS arrecada R$ 71 bilhões, paga R$ 88 bilhões em benefícios e fica com um buraco de R$ 17 bilhões. O regime dos servidores recolhe R$ 21 bilhões, paga R$ 61 bilhões a inativos e pensionistas e fica com um déficit de R$ 39,2 bilhões. O regime geral atende a 21 milhões de brasileiros, o especial a 952 mil servidores federais. A média das aposentadorias do INSS é de R$ 389 e a média mais baixa entre os três poderes é de R$ 2.272.

(Os "outros" lembram que os servidores pagam contribuição de 11% sobre o salário bruto — os do INSS apenas sobre o teto de R$ 1.562,50 —, não têm FGTS e enfrentam restrições na carreira).

Sobre a contribuição dos inativos:

— Não entendo que uma pessoa progressista ache justo que os servidores, ao se aposentar, tenham um aumento de 11%, na medida em que deixam de contribuir.

(Os "outros" invocam o direito adquirido dos que já se aposentaram, lembrando que já pagam imposto de renda na fonte).

Sobre o papel dos governadores, Genoino admite que foi infeliz sua brincadeira com o líder pefelista José Carlos Aleluia sobre o "telegovernador", a pressão direta dos governadores sobre as bancadas para votarem a favor. Melhorou sua proposta:

— Sugiro que os governadores, tão interessados na medida, participem da campanha publicitária a favor das reformas. Cada qual grava uma participação para ser exibida em seu estado.

Genoino toma ainda a defesa do ministro Palocci, na questão do câmbio, motivo de divergência com o líder Mercadante, e diz que ministros e autoridades petistas devem "discutir mais internamente, falar menos para as platéias e conter suas vaidades".

O ministro Gushiken corrige o ministro Gil: 172 projetos de patrocínio cultural, totalizando R$ 59 milhões, já aprovados. Se nem Gil sabia, continua tendo razão em reclamar.

Novamente em cartaz

Está de volta, em outro cenário, com novos atores e outro texto, a mesma discussão que no governo FH dividiu os tucanos e aliados entre monetaristas e desenvolvimentistas. Os primeiros agora atendem pelo apelido de fiscalistas. A evidência de que a política econômica está longe de ser pacífica dentro do PT e do governo foi dada pelo senador Aloizio Mercadante, ao divergir publica e frontalmente do ministro Palocci na questão do câmbio, e pela professora Maria da Conceição Tavares, na entrevista em que mandou bala contra o núcleo formulador da Fazenda.

Mercadante voltou a defender ontem a adoção de mecanismos que induzam à estabilização do dólar em certo patamar, preservando os benefícios já obtidos, como a queda da inflação, mas sem comprometer o surto positivo das exportações que, reduzindo a dependência de financiamento externo, facilitaria o caminho para a retomada retoma do crescimento.

Reserva-se o direito de externar suas idéias econômicas, "como sempre fiz nos últimos 20 anos". Mas quando o faz, reaviva um pacto tácito que houve no PT, que aceitou as medidas duras até aqui adotadas como parte da transição, não como uma opção.

NUMA DURA discussão com o PCdoB sobre a reforma previdenciária, a tantas o ministro Dirceu perdeu a estribeira: "então votem como quiserem". Devem estar sobrando votos a favor no PT.

Tereza Cruvinel


cruvinel@bsb.oglobo.com.br
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