
Sálvio Barbosa Kaxinawá
Antigamente
os índios e os brancos não se conheciam. A primeira vez que
os brancos encontraram um índio, este estava sem roupa e brincava com
um morcego que tinha achado num oco de pau. Os brancos perguntaram ao índio
quem era ele, que não entendia português, respondeu na sua língua:
eu tô matando morcego.
O morcego a gente chama kaxi. Então o branco botou um nome nele – sua tribo e você se chamam Kaxinawá.
Os brancos seguiram o seu caminho, e mais na frente, encontraram outro índio que caçava no mato uma arara. A arara nós chamamos de shawã. Os brancos então perguntaram ao índio onde é que ele andava. O índio respondeu assim: eu matei só arara.
Então os brancos disseram: Você e sua tribo são Shawãdawa.
Mais na frente os brancos encontraram outro índio com um porquinho morto nas costas. Os brancos estão perguntaram o nome dele e ele, que não sabia seu nome, disse assim: - eu matei só um porco.
Como nós chamamos porquinho yawa,os cairiús disseram: - você e sua tribo são Yawanawá.
Depois os brancos encontraram outro índio no caminho caçando com seu cachorro. O índio tinha matado só uma cutia e o cariú perguntou: O que você matou? O índio respondeu: eu matei só cutia. Os brancos então botaram o nome dele e de sua tribo de Marinawá, pois nós chamamos cutia de mari.
Mais tarde, os brancos encontraram outro índio trabalhando no roçado para derrubar pau. O índio estava com um machado, jami, e os brancos botaram nele o nome de Jaminawa. (Estórias de hoje e Antigamente, 1984).
O tempo das malocas
Noberto Sales Tene Kaxinawá
A vida antes do contato
O tempo das malocas é o tempo mais antigo para os índios do Acre e sudeste do Amazonas.
É um tempo muito longo, que vem desde o começo do mundo.
Tempo do nascimento do nosso povo indígena.
Tempo das histórias de antigamente, dos nossos mitos.
Da nossa cultura tradicional.
O tempo das malocas serve para contar a vida de cada povo indígena antes dos cariús chegarem na nossa região para abrir os seringais.
Nossa maloca tradicional
Franscisco Dasu Kaxinawá
De primeiro, o nosso povo vivia em grandes malocas. Na nossa língua, dava-se o nome shubuã. No português, depois ficou conhecido por kupixawa.
Nossa maloca tradicional era uma moradia de teto alto, coberto de palha. Esse teto vinha até perto do chão, mas não encostava. Não tinha paredes. O chão era terra batida. A maloca era sempre construída perto da água e dos roçados, para facilitar os trabalhos dos homens e das mulheres.
Dentro do kupixawa moravam muitas famílias. Cada família tinha seu próprio canto para atar suas redes, fazer fogo para cozinhar, guardar suas coisas e pendurar as sementes dos legumes.
Cada kupixawa tinha seu chefe, que mandava nos outros chefes de família.
Textos e ilustrações extraídos do livro Índios no Acre – História e Civilização, editado pela Comissão Pró-Índio