
Jornalismo a serviço da educação sexual
Cesar Garcia Lima *
Há mais ou menos três anos, a jornalista carioca Graça Portela sentiu-se no limite vocacional: precisava ser mais útil. Largou o trabalho como coordenadora de comunicação de uma estatal e assumiu os riscos de uma nova postura na profissão: “Sempre quis ajudar as pessoas com o meu ofício, dar um uso prático para o jornalismo”. Assim, Graça criou o projeto de um programa de rádio, o Rádio Positivo, sobre DSTs (doenças sexualmente transmissíveis), e passou a ser buddy (companheiro/a, em inglês), termo que designa atendentes domiciliares de pacientes soropositivos. Mudar o foco de seu ofício (como a própria Graça faz questão de chamar sua atuação como jornalista), no entanto, foi um longo caminho de aprendizado. É notável que hoje, aos 43 anos, pouco tempo depois de ter feito a escolha por uma ocupação social, ela consiga atuar como voluntária e também tirar desse trabalho o seu sustento.
Mas por que a escolha recaiu sobre as DSTs? Graça lembra que a primeira notícia que a despertou para a necessidade urgente de fazer alguma coisa sobre o assunto foi a morte de Cazuza. “Eu era fã dele e quis saber mais sobre o tema, percebi que a Aids estava se aproximando da gente com a morte de pessoas próximas.” Depois de alguma pesquisa, a jornalista percebeu que as campanhas de prevenção da Aids e outras DSTs estavam voltadas principalmente para as grandes cidades. “Na época, fui ao interior do Nordeste e me questionei como as DSTs atingiam esses locais e a África. Daí veio a idéia de montar um programa de rádio, que eu adoro, a partir de um aproveitamento da cultura oral. Primeiramente pensei em resgatar as rádio-novelas, depois vieram outras idéias.” Em 2001, Graça se aproximou do grupo Arco-Íris de Conscientização Homossexual e participou do Projeto Rio-Buddy, no qual aprendeu a cuidar de pacientes soropositivos. Até agora, Graça teve uma paciente, recentemente falecida, mas a proximidade com a dor não parece ter abalado sua vontade de ajudar.
A maneira de expandir seu trabalho, como queria, veio do interior. Há um ano, Graça levou suas idéias para Natividade (noroeste fluminense), onde foram incorporadas ao programa “Saúde em dia”, que vai ao ar às segundas e quartas-feiras, às 19h, pela Rádio Nova FM (99,9), com informações que vão muito além do universo soropositivo. “Além da rádio-novela, na qual os personagens vivem situações ligadas ao cotidiano sobre DSTs, há também dicas de saúde e entrevistas com pessoas da área médica, social e psicológica”, informa a jornalista.
Em breve, ainda pelas ondas do rádio, ela levará seu programa para Petrópolis, região serrana do Rio de Janeiro, através de uma emissora comunitária ligada à ONG SOS Vida. O apelo do cotidiano do interior, aliás, foi tão forte que Graça mudou-se para Petrópolis, conciliando a proposta social e uma vida mais distante da violência que assola o Rio de Janeiro. A interatividade também contou bastante para Graça, que é boa de conversa: “A vantagem do programa de rádio é que você pode falar de maneira muito franca, direta e ainda interagir com os ouvintes. Quero ouvir o que as pessoas pensam sobre DSTs e também reproduzir isso nas rádio-novelas, onde a dona Maricota, personagem central, comenta tudo o que ouve, incluindo Aids, sífilis, HPV e gonorréia, entre outras. Um cuidado que tenho é bater duro contra o preconceito para com essas doenças, desde o conteúdo da rádio-novela até ao tom das entrevistas”.
Alô, alô, rádios acreanas: quem sabe a idéia desse programa também pode ser útil por aí?
e-mail: cegali@terra.com.br
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