
A intenção é fazer uma página aberta a memórias, reflexões, entrevistas, notícias, artigos e cartas (ou e-mails). Os colaboradores serão bem-vindos.
Leitura instigante
Em
agosto de 2000 recebi de presente, do ex-governador e atual senador pelo Estado
do Amapá João Alberto Capiberibe (PSB), o livro “Tornar
Possível o Impossível - a esquerda no limiar do Século
XXI”, da chilena militante de esquerda Marta Harnecker. Na dedicatória
Capiberibe escreveu:
“Quando vivi no Chile (foi exilado político) em um assentamento de Reforma Agrária, conheci os cadernos de educação popular de Marta. Confesso que aprendemos muito, eu e Janete (esposa e deputada federal). Agora ela nos chega em plena maturidade, cheia de sabedoria”.
No prefácio à edição portuguesa Miguel Urbano Rodrigues diz que Marta Harnecker escreveu o livro pensando sobretudo nos jovens da América Latina. “Mas trata-se de uma obra com interesse para toda humanidade progressista”, afirma.
Ele acrescenta que “milhões de homens e mulheres que pelo mundo afora permanecem fiéis aos ideais da esquerda em sociedades muito diferentes, tendem a fazer seu o grande desafio sintetizado por MH”.
Publicado no Brasil pela editora Paz e Terra, em 2000, o livro de 456 páginas faz uma síntese dos acontecimentos mais relevantes que tiveram lugar na América Latina a partir da revolução cubana; trata das mudanças ocorridas nos últimos 40 anos, até chegar à globalização; e descreve a situação da Esquerda diante dos desafios do mundo atual.
Não esquecer - Uma parte muito instigante do livro começa na página 361 sob o título “Instrumento político adequado aos novos desafios”. Eis alguns tópicos:
“Muitas vezes pensamos que podemos fazer a organização, o partido e a sociedade que sonhamos, sem conhecer os esforços realizados por muitas outras gerações que se propuseram fazer coisas, que iniciaram trabalhos, que cometeram erros, que os retificaram e que deram a vida por esse ideal. Creio que é imprescindível conhecer esse movimento e aprender com esses esforços”.
“Esquecer o passado, não aprender com as derrotas, pôr de parte as nossas próprias tradições de luta, tudo isso é fazer o jogo da direita – é ela a mais interessada em que se apague a memória histórica dos nossos povos – porque é essa a melhor forma de não acumular forças...”
Semana que vem tem mais Marta Harnecker ...

Foto histórica
Lá pelos idos de 1983, como chefe de reportagem do jornal “Folha do Acre” surpreendi um grupo de jovens comunistas de Cruzeiro do Sul que traçavam sua estratégia política para o futuro. Entrevistei alguns deles e bati esta foto. Sei que alguns deles, beirando os 40 anos, exercem hoje mandatos políticos pelo PC do B (Partido Comunista do Brasil). O leitor poderia ajudar-me a identificá-los?
Cartas
Oi Elson,
A segunda feira não prometia muito, mas encarei o início da semana chuvoso.Fui procurar uns papéis e encontrei o presente pra tua neta que comprei na época da cassação do Jorge Viana.Um macacão onde eu queria pintar uma bandeirinha do Acre, entregar pra Vássia mas até hoje não fui vê-la. Enfim, tinha o que fazer pela manhã e uma vez mais adiei a visita.
Peguei uma mototáxi, resolvi algumas pendengas e vim pra casa esperar uma carona para ir até o Bairro Wanderley Dantas onde pretendemos começar mais um núcleo do Projeto Oficina Som da Floresta...que você não conhece mas vai dar aquele sorriso de concordância quando perceber, assim como eu, como dá para fazer muito com muito pouco...E chegando em casa fui recebida com muita alegria pela Dona Odete, a mãe da Verinha (viu como nossos filhos nos superam? Depois de um certo tempo somos os pais “do” e “da”...) Pois é, lá estava ela no quintal que une nossas casas e nossas vidas há quase 25 anos me dizendo: “Você leu o Página 20 de ontem? Leu? O Elson fala de você, fala da tua história, está linda a matéria”...
E disse que havia emprestado o exemplar pra irmã, mas tinha mandado buscar para me mostrar. Imagine a minha reação: Eu? Eu mesma? O Elson falando de mim? Curiosidade e ego se misturaram... Liguei para Mariama (a filha jornalista) e pedi que arranjasse um exemplar. Chegou o Diogo, namorado dela, que veio gravar algumas composições dele com o João Eduardo (o filho músico) e consegui distrair o anseio e controlar o ego. Os dois vão se inscrever num Festival que, se ganharem alguma coisa, vou viver de lucros familiares, por direito adquirido....Uma das músicas que eles vão mandar fala de Zumbi e Chico Mendes, Palmares e Xapuri, e homenageiam o LHÉ. Ele mesmo...o velho e querido Abrahim que eles reverenciam e que aprenderam a gostar e amar mesmo, com tanta convivência aqui em casa, no ano passado....Você sabe que o Lhé transferiu pro João Eduardo o carinho que ele tinha pelo Zé Gilberto e pelo dono do nome, João Eduardo.
E assim como num túnel do tempo tudo foi se misturando muito, esta segunda-feira que parecia tão normal e o passado tão presente! Um presente com um cheiro tão forte de passado...Fui mexer em uns papéis e encontrei uma reportagem que falava sobre o Projeto “Poronga” idealizado pelo Chico Mendes e li pro Diogo, para ele entender ainda muito mais o quanto é significativo eles terem colocado o nome de “Los Porongas” na banda que estão tentando manter. Lembra que na discussão do nome do jornal naquela época, lá na tua casa, a gente chegou a pensar em colocar o nome de Poronga antes de aprovarmos o nome Varadouro? Foi numa noite em que, à meia-noite, as luzes de Rio Branco se apagavam....não havia diesel para manter a cidade “ligada” por 24 horas. Mas nos bastava a lua que clareava a João Donato naquela escadinha lá da tua casa de madeira pra gente continuar a conversar, sem medo da escuridão.
Por várias noites saíamos da tua casa, eu, o Sílvio, o Pe. Cláudio, o Abrahim, o Zé Gilberto, o Marmo e íamos acompanhar os “noviços do Dom Moacir” até o Seminário que ficava lá no Meta, perto da ponte.Rio Branco era tranqüila demais. Lembra que o Luis ficou com a parte de esporte e polícia? Você lembra de como eram as matérias policiais? Contos de fadas, perto da gravidade da violência dos dias atuais. O que nos assustava mesmo era a grande violência do Sistema: fim da ditadura (será que acabou mesmo?)...os ”paulistas” chegando cada vez em maior número e eu tinha um medo particular daqueles olhares de cada acreano que você me apresentava, quando você dizia que eu também era “paulista”?
Se não fosse o teu aval, o teu acreditar em mim, o você estar sempre ao meu lado, o você ter permitido que a Vássia se enrolasse nas minhas pernas, que a Jalva risse dos meus medos de aranha, de casa sem forro, de cair da rede, de não saber carregar lata d´água na cabeça, enfim...mais do que o teu desafio na mesa de um bar, o que realmente teve um enorme valor foi a tua acolhida, a tua aceitação, o teu acreditar, o teu permitir, embora sempre me “assuntando”.
Enfim, por tudo...vou obedecer a nova lógica, a nova ética pregada pelo Boff (“sinto, logo existo”) e viver alguns instantes mágicos de uma sensação de que valeu a pena ter feito tudo como foi, de ter percorrido a estrada até os dias de hoje, e do quanto ainda se tem por fazer...
E em meio a tantas emoções, o teu texto me fez chorar, rir, abraçar os que leram comigo, ficar bem e em paz, uma paz tão necessária pra entender este momento de guerra...lá no Iraque, com uma desigualdade de forças que agridem o nosso bom-senso, o nosso entender... E aki no “Iracre” alguns pequenos bombardeios internos que me deixam surpresa e pasma.
Beijos e obrigada... Vou ver a tua neta antes que o macacão não sirva mais.
Célia Pedrina (a mãe do João Eduardo e da Mariama Morena)