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Rio Branco - Acre, terça-feira, 29 de abril de 2003

Somente 20% dos habitantes de Rio Branco trabalham no mercado formal

No mês de abril mais de 8 mil pessoas procuraram o Sine/AC e apenas 88 conseguiram emprego

TATIANA CAMPOS

Juscelino José Rodrigues, 43, sustenta os seis filhos limpando quintais. Henrique Lucas de Oliveira, 60, mora sozinho e sobrevive juntando latinhas e alumínio para reciclar. Francisco das Chagas, 59, para se manter, trabalha quebrando pedras. Os três têm histórias de vida semelhantes: baixa escolaridade e nenhuma qualificação profissional. E trabalham no mercado informal, sem carteira assinada ou qualquer garantia trabalhista.

Em 1º de maio é comemorado o Dia do Trabalhador, mas eles pouco têm a festejar. Em Rio Branco, segundo dados do IBGE, dos 253.059 habitantes apenas 58.465 têm ocupação formal. Em março, os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) apontam uma diminuição de 0,15% no mercado formal.

Nascido e criado no seringal, Henrique anda diariamente cerca de 6 quilômetros de manhã juntando latinhas, pedaços de antenas, panelas, tudo que for de alumínio. Ele ganha ao mês entre R$ 150 e R$ 200. Há 17 anos na cidade, conta que deixou o interior quando a produção da borracha e da castanha caiu e os patrões venderam a terra aos “paulistas”.

“Sei ler um pouco, mas isso não é o bastante para me empregarem. Procurei emprego por todo canto mas diziam que não precisavam de ninguém. Na verdade, eles não querem contratar gente velha”, disse Henrique.

O catador de latinhas lembra que já trabalhou com carteira assinada por um ano e sente saudades desse tempo. “Era bom, eu tinha férias, décimo terceiro. Hoje eu não posso parar de trabalhar porque não tenho outra forma de me sustentar”. Ele não sabe quando se comemora o Dia do Trabalhador. “Só sei que todo dia é dia de trabalhar”, comenta.

Sine: cerca de 350 pessoas por dia

Segundo o gerente de mobilização pelo trabalho da Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Auto-Sustentável (Seplands), Darlam Brígido, o índice de analfabetismo, a baixa qualificação profissional e a exigência de experiência podem ser considerados responsáveis pelo alto índice de desemprego. Um dos mercados que mais abrigam mão de obra sem exigir qualificação é o da construção civil, que teve uma diminuição de 63 mil postos de trabalho nos últimos 12 meses.

No mês de abril mais de 8.300 acreanos procuraram o Sistema Nacional de Empregos (Sine-Ac) em busca de uma vaga no mercado formal. Ao dia são cerca de 350 atendimentos, o que indica um mercado cada vez mais competitivo e fechado, segundo o órgão.

Os empregos oferecidos pelo Sine são diversos. Entre eles, vagas para telefonistas, empregadas domésticas, vigias, vendedor pracista. Em geral são ocupações que não exigem muita qualificação.

“Cada emprego exige uma especificidade, a maioria pede cursinhos, segundo grau, experiência de um ou dois anos com carteira assinada, isso varia de acordo com o perfil traçado por cada empresa. De vez em quando pinta uma vaga para biólogo, engenheiro e não temos candidatos no quadro”, explica Darlam.

Segundo o gerente, o número de jovens (entre 18 e 25 anos) que buscam o primeiro emprego também é muito alto. “Eles procuram fazer cursinhos, se qualificar como podem, mas as empresas exigem experiência. Existem algumas vagas difícil de serem preenchidas, porque as empresas não querem empregados sem experiência”, ressalta.

Para atender a demanda de jovens que buscam ingressar no mercado de trabalho, o Sine-AC está discutindo com o Estado um programa para o primeiro emprego.

Queda no mercado da construção civil

Em abril, o Sine-AC colocou no mercado formal de Rio Branco 88 pessoas. Segundo os dados do CAGED, em março de 2003, no Brasil, o número de trabalhadores com carteira assinada expandiu em 0,09% devido o incremento de 21.261 novas vagas. Assim, a geração de empregos acumulada no primeiro trimestre deste ano somou 140.775 postos de trabalho. Apesar do crescimento de vagas, o número de desempregados no Brasil continua crescendo e o mercado informal sofreu uma queda no mês passado.

Em março, segundo dados do CAGED, com exceção do comércio, onde o nível de emprego caiu 0,11% (-5.451 postos) e da Construção Civil, que apresentou a diminuição de -1,17% (-13.416 postos), os grandes setores da atividade econômica (que exigem qualificação profissional) registraram elevação dos postos de trabalho.

Francisco das Chagas procurou emprego nas firmas de construção civil e encontrou as portas fechadas. Aos 59 anos não consegue arrumar emprego fixo. A alternativa encontrada para sobreviver foi quebrar pedras. Por cada metro de concreto ele recebe R$ 8. Ganha em média R$ 25 reais semanais.

Beirando a idade de se aposentar, seu Francisco não vai poder descansar e receber sua aposentadoria. “Vivo do meu trabalho, se não trabalhar, não tenho dinheiro. Não posso nem pensar em parar. Gostaria e muito de ter as garantias de quem tem carteira assinada, mas, só sei ler e contar, não consigo emprego em canto nenhum”, lamentou Francisco Chagas.

Serviço

Sistema Nacional de Emprego –SINE
0800 6478182
Rua Franco Ribeiro, 57, centro (atrás da Biblioteca Pública)

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