
Itamar de Sá
“Quero recuperar o tempo perdido”
ALTINO MACHADO
O MDA sofreu ontem outro duro golpe: o prefeito de Marechal Thaumaturgo, Itamar de Sá, 40, anunciou a decisão de trocar o PMDB pelo PC do B.
O município que administra tem, de acordo com o IBGE, 8,5 mil habitantes, mas os dados da Fundação Nacional de Saúde indicam a existência de 12 mil pessoas.
Marechal Thaumaturgo, cujo orçamento anual é de R$ 5 milhões, já foi considerado o município com o pior Índice de Desenvolvimento Humano no país.
É também uma das localidades mais isoladas do Estado. Nessa época do ano a viagem de barco até Cruzeiro do Sul demora em média quatro dias de descida pelo rio Juruá.
O município será o primeiro do Acre administrado pelo PC do B. A adesão do prefeito estava sendo disputada amigavelmente pelo PT, mas ontem o deputado estadual Edvaldo Magalhães (PC do) estava mesmo era contente com o impacto da conquista dentro do PMDB.
O município que será administrado pelo PC do B possui 7,2 mil Km2 de extensão, sendo que 90% dessa área estão comprometidos com preservação ambiental em reservas extrativistas, áreas indígenas e um parque nacional.
Itamar de Sá é casado, pai de quatro filhos. Começou a militância política como filiado do PT no Rio de Janeiro. Ao retornar ao Acre, no começo dos anos 80, ingressou no PMDB.
Ele era um dos principais aliados do ex-deputado Vagner Sales, que, anteontem, durante um vôo de Cruzeiro do Sul para Rio Branco, tentou demovê-lo da decisão. Itamar de Sá torce para não ter perdido o amigo, mas já ganhou um novo adversário político. Sales ameaça transferir o domicílio eleitoral para Thaumaturgo para tentar barrar o plano de reeleição do ex-aliado.
Leia os melhores trechos da entrevista a seguir.
Prefeito, será que não vai sobrar ninguém para fazer oposição ao governo da Frente Popular?
Os partidos que foram derrotados nas urnas precisam se credenciar para isso. A população exige credenciais para ser governo e para ser oposição. Sem qualificação, não se consegue traduzir o sentimento de descontentamento da sociedade. Os partidos que formam o MDA precisam se credenciar com uma série de procedimentos para que possam voltar a merecer credibilidade da sociedade.
O senhor foi um dos entusiastas da candidatura de Flaviano Melo ao governo estadual. Quando ocorreu a ruptura?
Existem coisas que acontecem que sequer a imprensa chega a tomar conhecimento. Essa “verdade” de que existiu uma romaria dos prefeitos para pedir que Flaviano Melo largasse a prefeitura de Rio Branco e fosse candidato não é verdade. O que existiu foi uma estratégia de marketing naquele momento. O que se avaliou é que Flaviano anunciando sua decisão de ser candidato não causaria o impacto necessário. Então todos nós viemos fazer parte de uma encenação teatral.
Então o senhor não chegou a tentar convencer o ex-prefeito a se candidatar ao governo do Acre?
Não porque esse não era nosso sentimento. Além disso, o próprio Flaviano Melo não se sentia suficientemente empolgado. Ele acabou se tornando refém do projeto político de alguns aliados, que viam nele a única possibilidade de derrotar a Frente Popular.
Qual era a sua opinião naquele instante?
Eu defendia que o PMDB deveria romper com o MDA e desenvolver uma política de aproximação com os partidos que integram a Frente Popular. Naquela ocasião, o próprio Flaviano Melo se mostrava temerário com a disputa. Infelizmente, houve muita precipitação, e disputamos o governo num momento muito inadequado.
O que a Frente Popular deve fazer para evitar a implosão que ainda hoje atinge o MDA?
É preciso estimular a convivência democrática, permitindo que a os partidos de oposição possam se reaparelhar e atuar. É preciso saber que se essa oposição não aparecer, fatalmente surgirá das entranhas da própria Frente Popular. O enfrentamento das forças antagônicas é vital para manter a nossa coesão em sentimento e pensamento. Além disso, o governo precisa fazer autocrítica permanente, estar aberto às críticas e sugestões dos partidos que integram a sua base de sustentação.
Quais foram os principais erros que levaram o PMDB a ser praticamente extinto do mapa eleitoral acreano?
A eleição do governador Nabor júnior, em 82, foi a realização de um sonho. Depois disso, começou uma mudança na forma de fazer política. As decisões deixaram de ser compartilhadas e o PMDB foi perdendo cada vez mais a sua identidade, passando a decidir em benefício de meia dúzia de pessoas, sempre levando os interesses circunstanciais.
O senhor administra Marechal Thaumaturgo, que tem 90% de sua extensão territorial comprometida como área de proteção ambiental. De que maneira os benefícios do poder podem alcançar os povos da floresta sem os vícios da política?
Esse é um desafio que está posto. Já foram cometidos muitos erros muito graves no trabalho de organização da população da Reserva Extrativista do Alto Juruá. O movimento é muito questionado e acredito que já esta havendo uma discussão profunda no sentido de se procurar os rumos e os erros. O governo que apoiar projetos interessantes, que visem o desenvolvimento sustentável daquela região. O governo tem trabalhado com as populações tradicionais, mas infelizmente faltava esse elo local com o poder público. Acredito que a partir de agora temos as condições objetivas para avançar nesse sentido.
O senhor compartilha do pensamento de que o desenvolvimento de Thaumaturgo está engessado porque 90% das terras são de preservação ambiental?
Não. Nosso município não tem ligação rodoviária. O acesso que temos é pelo rio durante um período muito curto. Não temos vocação agropecuária. A relação do povo de Thaumaturgo sempre foi com a floresta. O seringueiro nunca foi de trabalhar com sol no rosto. Ele sempre trabalhou no frescor das manhãs. Quando partiram para a agricultura por necessidade, passaram a plantar feijão à sombra. Em Thaumaturgo, o povo cultiva dentro do mato, à sombra, uma variedade enorme de feijão. O que precisamos é de projetos que organizem a agricultura familiar, onde durante todo o ano se possa plantar e colher uma variedade de produtos. Nós também podemos fazer um programa de recuperação e repovoamento dos lagos da região, onde o pescado servirá para alimentar a população e o excedente poderá ser comercializado.
O senhor está se tornando no primeiro prefeito do PC do B no Acre. O que isso tem de especial?
Temos que arregaçar as mangas e trabalhar para avançar. Quero recuperar o tempo perdido e mostrar que é possível a população assegurar o próprio sustento e melhorar de vida a partir de uma visão moderna de exploração racional dos recursos naturais.
O município que o senhor administra tem o pior IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do país. Como é conviver com isso?
Isso se refere ao relatório fechado em 2000. Hoje a realidade não é mais essa. Até 2000 não tínhamos programa na área de saúde funcionando. Hoje temos quase todos os programas da rede de proteção social do governo e começamos trabalhar firmemente o saneamento básico. Temos água de boa qualidade sendo consumida pela população. Começamos a implantar sistemas independentes de abastecimento de água em comunidades rurais. Iniciamos a eletrificação rural em 48 localidades. Ampliamos a rede municipal do ensino fundamental a todas as comunidades.
O senhor considera o IDH injusto?
É completamente injusto porque não é reflexo da realidade. Temos pobreza, mas não temos miséria. O acompanhamento que é feito pelos nossos agentes de saúde não se compara com os dados de outras regiões, como o Vale do Jequitinhonha ou do sertão nordestino. Acho que o que existiu foi a falta de envio de dados do que já se fazia. A população é muito dispersa. Existe, em média, uma pessoa para cada quilômetro quadrado. Não tem como se ter sistema de esgoto e água potável para cada habitante que vive isolado e isso tem um peso enorme na avaliação do IDH.
Como o senhor avalia a repercussão que terá dentro do PMDB a sua saída para o Pc do B?
Acho que abala alguns setores do partido. Infelizmente nós estivemos aceitando decisões e ajudando com votos para atender determinados projetos. Agora poderei, mais seriamente, buscar as soluções em benefício do nosso povo.
O senhor acredita que possam ocorrer mais defecções no MDA?
Sim, eu acredito que haverá um processe de reacomodação. Quem quer fazer política para o Acre avançar terá que procurar outro ambiente para continuar fazendo política.
Como o senhor avaliou a decisão do governador Jorge Viana, que na semana passada procurou os prefeitos adversários do Vale do Juruá para começar a estabelecer parcerias no plano administrativo?
O governador Jorge Viana demonstrou que sua maior preocupação é com o povo do Acre. Ele poderia, com a maioria política que tem hoje, passar com um rolo compressor por cima de todos os prefeitos ligados ao MDA. Mas o que ele fez foi procura-los para dialogar sobre os problemas enfrentados pela população. Foi um gesto nobre abrir mão de esmagar as forças políticas adversárias. A atitude dele deixa evidente que ele quer oposição, que sabe tratar a oposição e que existe espaço para quem quer continuar sendo oposição.
O senhora concorda que a oposição tem sido incompetente por ser irresponsavelmente leviana?
Há três anos sugeri que o PMDB reunisse um grupo de pessoas de notório saber para que nossos parlamentares pudessem ser municiados com dados sobre aquilo que a gente considerasse em desacordo com os interesses da população. O MDA foi muito competente em fazer o barulho que poderia fazer, mas não dispunha de um projeto de desenvolvimento para a população. O povo percebeu isso e mesmo que tivesse um projeto, o MDA seria questionado sobre os signatários desse projeto. A oposição é necessária, mas acontece que dentro do PMDB tem gente que defende a “vodumania”, isto é, cada um precisa ter um bonequinho do Jorge Viana ou do Lula para, toda sexta-feira 13, cravar alfinetes e desejar todo azar do mundo. Tenho quatro filhos e quero que o Brasil de amanhã seja um país de oportunidades. Temos que preparar a sociedade para as gerações futuras.