
Francisco Dandão *
Vivemos hoje bem mais do que vivíamos há um século. Os antibióticos e as vacinas nos dão uma expectativa de vida bem maior. Através dos orifícios naturais representados pelas nossas bocas gulosas, sempre dispostas a provar vitaminas e anfetaminas, a resistência chega a galope.
Em muitos países, inclusive, já há até uma certa preocupação das autoridades com o crescimento vertiginoso da população de idosos. Tanto que campanhas ostensivas saltam celeremente, e com freqüência, da sedução das peças publicitárias para o bico perfurante de seringas hipodérmicas.
Mas, a despeito dessa longevidade dos humanos, a vida de todas as coisas em torno de nós ficou bem menor. O mundo está morrendo tão rapidamente (alguns dizem "mudando") que não é mais possível se acostumar a quase nada. Piscamos os olhos, e pronto, nada mais é a mesma coisa.
Na velocidade com que se vive, nem há mais tempo suficiente para a compreensão exata dos conceitos. Nesse sentido, uma definição acaba sendo tão somente um elo tênue de um processo transitório, desesperadamente em busca do traço que possa dar-lhe a devida seqüência.
Num dia, por exemplo, acordamos dizendo-nos modernos e, uma migalha de instantes depois, quando pensamos que ainda somos assim, já não somos mais: a sombra do pós-moderno se fragmenta no ar bem debaixo do nosso nariz, sem nenhuma chance de retorno ao ponto de partida.
Vai daí que, de choque em choque, todos os dias, a um toque de botão uma nova mágica se materializa diante dos nossos sentidos. E tudo que era novo na noite anterior, amanhece com cheiro de mofo, bordas carcomidas e com rachaduras nos pedestais. O efêmero e o eterno têm uma mesma face.
Nada parece real (se é que algum dia algo pode ter sido). Fantasia, pesadelo, miragem e sonho se misturam. As imagens das guerras cheias de luzes coloridas e grossos rolos de fumaça subindo aos confins do céu confundem-se com fogos de artifício e estampidos de festejos juninos.
No calor das contradições delirantes encenadas em discursos midiáticos, mata-se para que se crie a vida, como se de corpos inanimados pudesse ser extraída a pedra filosofal que viesse a transmutar o nosso instinto selvagem (ou, pelo menos, se não é assim, esse é o pretexto).
O segredo do átomo é somente mais uma charada divina para que possamos aprender uma outra maneira de dividir o pão ou multiplicar os peixes. Desta forma, padeiros e pescadores, apóstolos, operários e famintos de todos os recantos estarão sempre alguns passos à frente quando vir a reforma da previdência.
Os corpos dos inocentes expostos à radiação dissolvem-se em farelos carregados de leucemia e são servidos na forma de moquecas besuntadas de azeite de dendê e afogadas em molho de tomate. A última ceia é a única que conta para não se perder de vista que a fome é sempre zero (à esquerda).
A síntese do herói contemporâneo bem que poderia sair das memórias atemporais (antigas e futuras) de um homem-bomba. Ao se atirar de encontro aos ocidentais cheios de medos e protegidos por tanques blindados, ele (o homem-bomba) como que se diverte com os olhares tardios de perplexidade.
Nós ocidentais, aliás, não poderíamos mesmo nos comportar de outra forma, que não fosse essa de atropelado pela face descarnada do horror. Afinal, nos primórdios do nosso raciocínio lógico, no mais distante que nós podemos chegar sobre os próprios passos, dorme um porre de cicuta.
Vivemos mais hoje do que vivíamos há um século. Mas, às vezes, a gente esquece. E apressados perdemos os momentos felizes. E então a nossa vida fica menor. Tudo ficou tão rápido que este texto não existirá mais quando acabar de ser lido. Quem tentar lê-lo outra vez, verá que ele é outro.