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Nas telas de um tal cinema Imprimir E-mail
Escrito por Fernanda Birolo *   
17-Abr-2010

foto_1.jpgA linguagem é a mesma. As ferramentas são iguais. Mas o olhar muda tudo. As histórias, ao mesmo tempo contadas e protagonizadas pelos índios, fazem do cinema um importante instrumento de luta –  de uma resistência que é cultural, mas também fortemente política.
Os temas são os mais diversos: tudo que permeia a realidade dos povos indígenas e a visão dos mesmos sobre aquilo que vem de fora. É contar a história ao inverso – um inverso tão verdadeiro, mas que nunca teve seu devido espaço. Agora, com câmeras nas mãos, os índios enfim conquistam o direito de reconstruir as distorcidas imagens de seus povos.

Até pouco tempo, o papel da narração era exclusividade dos não índios, que entravam nas aldeias, captavam as imagens, utilizavam para os mais diversos fins e nunca mais voltavam. “Os brancos é que falavam por nós”, lembra o realizador Guarani Kuaraê (em português chamado de Ariel). O resultado era uma visão distorcida pois, como observa o Xavante Caimi Waiassé, “as coisas vistas por terceiras pessoas são tratadas como exóticas”.

foto_2.jpgUm novo olhar - O cinema indígena trouxe nova visão para a história de um país. Este olhar diferente e tão particular mostra os povos indígenas de uma forma como nunca se viu. São eles mesmos apresentando sua própria cultura. Com um toque intimista,  fazem registros que branco algum seria capaz de captar.
Isso porque, para saber de um índio, é preciso muito mais que perguntar. É uma questão de alma, revela o cineasta Kuaraê. Ele explica que, para um índio, é muito importante haver respeito. É entrar na casa de alguém e perceber se ele está bem para filmar ou não. Nem é preciso dizer, basta sentir.
É um sentir de ambas as partes, dos dois lados da lente: quem questiona e quem responde, quem capta e quem mostra. Entre eles, sentem-se à vontade e falam a verdade. A importância desta relação é confirmada pelo acreano Zezinho Yube, cineasta Huni Kui: “Os velhos só ensinam o que eles sabem para aqueles que eles confiam”.

Registro cultural - Os filmes produzidos pelos cineastas indígenas são instrumentos de valorização e preservação da própria identidade. Servem como importante ferramenta de memória de uma cultura que é tradicionalmente oral, da qual muito tem se perdido. Zezinho Yube alerta: “Quando um velho morre, leva todo o conhecimento que ele sabe”.

foto_3.jpgPara Yube, os vídeos funcionam como registro para os próximos que virão: as festas, as músicas, as pinturas, os kenês. É também uma maneira de ver seus próprios erros e tentar fazer melhor. E têm ainda um papel de revitalização cultural, possibilitando aos índios resgatar as tradições que aos poucos já caiam no esquecimento.
Mas este trabalho não é voltado somente para as aldeias. É também uma maneira de mostrar aos outros povos sua realidade, sua cultura e sua história. E preparar os cidadãos, de qualquer parte e qualquer crença, para compreender e conviver em uma sociedade multicultural.

Aldeias na cidade - “O pessoal da cidade precisa aprender muita coisa com a gente”, provoca o cineasta Caimi Waiassé. E ele tem razão. A sociedade como um todo precisa se reeducar, para aprender a respeitar. É um trabalho difícil, mas nem por isso impossível.

Rio Branco teve a oportunidade, nesta última semana, de assistir uma série de filmes que convidam a este respeito. São obras de cineastas indígenas, produzidas através do projeto Vídeo nas Aldeias. A mostra deu ao público a chance não somente de ver os documentários, mas também conhecer os seus realizadores – índios de vários lugares do país, dispostos a responder sobre dúvidas, curiosidades e os mais diversos questionamentos da platéia.
Para os cineastas, foi uma oportunidade de ver o resultado de seus esforços. Vincent Carelli, coordenador do Vídeo nas Aldeias, ressalta ser esse um importante momento de confrontar os autores com seu público e ver como seu trabalho é sentido.

A mostra, que aconteceu entre os dias 12 e 18 de março, foi realizada pelo projeto Vídeo nas Aldeias em parceria com o Governo do Estado do Acre, através da Fundação Cultural Elias Mansour, Biblioteca da Floresta e Secretaria de Educação. Participaram da programação cineastas Kuikuro, Guarani, Xavante, Ashaninka e Huni Kui, trazendo seus filmes e apresentando ao público as culturas de seus povos.

Nas telas das escolas - Como parte da programação da Mostra, foi lançada no último dia 13, na Biblioteca da Floresta, a coleção de DVDs “Cineastas Indígenas: um outro olhar”. Voltada para o uso em escolas de ensino médio, é um material didático para o estudo das Histórias e Culturas Indígenas, obrigatórias no currículo escolar. O projeto Vídeo nas Aldeias, com patrocínio do Programa Petrobrás Cultural, fez a doação dos kits para as escolas locais, através da Secretaria de Estado de Educação.

Como avalia Vincent Carelli, coordenador do Vídeo nas Aldeias, esta inclusão dos estudos sobre a cultura indígena nas escolas tem sido um grande desafio. Há muita dificuldade em vários sentidos, como por exemplo a falta de preparo dos professores: “Como é que os educadores vão poder ensinar os estudantes se nem mesmo eles sabem do assunto? Provavelmente passarão aos demais o conteúdo com a sua visão preconceituosa”, afirma.

As igrejas e a tradição - Outro desafio apontado por Carelli é a censura na divulgação do conteúdo em escolas que estão sob a autoridade de religiosos que não compreendem a tradição indígena. É uma delicada e polêmica questão, enfrentada não somente na educação, mas também dentro das aldeias.
Este foi um dos problemas levantados pelo jovem Zezinho Yube, cineasta Huni Kui de Tarauacá, em seu novo filme – As Voltas do Kenê, ainda não finalizado. Pesquisando sobre as tradições do Kenê, ele descobriu que a cultura de seu povo estava morrendo, mesmo nas últimas comunidades que tiveram contato com os “brancos”. Segundo ele, as culturas estavam sendo reprimidas pelos novos líderes das aldeias.

Em um tom corajoso e desafiador, Yube associa a perda das tradições à prática das religiões evangélicas, que estão invadindo as terras indígenas. Ele conta, entristecido: “Um parente meu me disse: você tem que se converter, porque a nossa cultura não existe. Ela é errada, pois não está na Bíblia.”
Yube calcula que, das 14 aldeias do povo Huni Kui, apenas cinco ou seis permanecem com suas crenças. Ele ressalta que não é contra nenhum tipo de religião, mas que é necessário haver respeito às tradições indígenas. Atualmente, ele vem enfrentando uma luta árdua para resgatar os rituais, danças, artesanato e histórias do seu povo.
“Esse é o meu dever. Não me conformo em ver os nossos jovens perdendo essa riqueza”. Yube tem clara consciência de seu papel enquanto cineasta da aldeia: “Meu trabalho não é só abordar o problema”. É preciso tentar resolver a questão e preservar a cultura.

* Jornalista e mestra em Ciências da Comunicação (colaboração de Brenna Amâncio, estudante de jornalismo)

 
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