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Encontros e Reencontros em Dias de Verão: Povos Yine, Manchineri e os parentes isolados para além da Imprimir E-mail
Escrito por   
12-Ago-2012

Lucas Artur Brasil Manchineri, vice-presidente da Organização dos Professores Indígenas do Acre (OPIAC), com a colaboração de Marcela Vecchione, assessora técnica CPI-AC

Durante quase um ano, um encontro entre parentes no Peru e no Brasil foi imaginado e organizado em trânsito, por encontros e reuniões, mensagens eletrônicas e, principalmente, com muita expectativa. Este encontro imaginado se concretizou no intercâmbio Yine-Manchineri, ocorrido entre os dias 09 e 17 de julho, na comunidade de Monte Salvado, no rio Las Piedras, no departamento de Madre de Dios, no Peru. A comunidade fica a aproximadamente a quatro dias de viagem de barco da cidade de Puerto Maldonado no período de estiagem. O trajeto para Monte Salvado foi marcado por pequenos encontros que construíram aquele que era o objetivo do intercâmbio: trocar experiências entre os Yine e os Manchineri, que são parte do mesmo povo, ainda que separados pela fronteira que desenha o Peru e o Brasil na Amazônia Sul-Ocidental. Esta troca teria também um pano de fundo ligado aos Yine e Manchineri na raiz de sua língua e nos territórios em que vivem nos rios Las Piedras, Iaco e Chandless: os chamados índios ou parentes isolados.  

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MANCHINERI mostram mapas de
sua comunidade aos Yine, no Peru

Na verdade, a viagem à Comunidade Nativa Monte Salvado e o intercâmbio tiveram início há um ano quando, entre os dias 04 e 13 de julho de 2011, recebemos na aldeia Extrema, na Terra Indígena Mamoadate, um grupo da Federação Nativa de Madre de Dios (FENAMAD). No grupo, estavam meu parente Yine, Segundo Teodoro Barga, e o coordenador do setor de índios isolados da organização peruana, Jorge Payaba. Neste momento, contamos com o apoio do geógrafo da Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-AC), Billy Fequis, para a marcação do trânsito dos isolados em um mapa transfronteiriço, estavam igualmente presentes representantes da Frente de Proteção Etnoambiental do Rio Envira (FPERE) da Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Neste encontro, foi reforçada a conexão entre os Yine e os Manchineri por meio da minha pessoa e do Segundo, que passamos a nos comunicar constantemente por correio eletrônico e pelas redes sociais, compartilhando experiências e a língua com o objetivo de organizar mais encontros para reforçar nossa cultura, história e práticas para proteger os parentes isolados. Mais dois encontros aconteceram entre os Yine e os Manchineri ao longo de 2011 e 2012, um em um seminário transfronteiriço Acre-Madre de Dios-Ucayali em novembro do ano passado e, outro, em fevereiro de 2012, quando participei, junto com a parceira Francisca Arara, do aniversário da FENAMAD.

Também foi no verão de 2011 que a CPI-AC e a FENAMAD começaram a estreitar contatos para a troca de informações sobre os índios isolados na região do Alto Acre. Sempre com base no trabalho de parceria junto com as comunidades, que são as que vivem o trânsito dos isolados de perto, estabelecendo regras dentro da própria comunidade para que estes parentes possam transitar em determinadas áreas sem serem abordados ou contatados. O contato entre estas organizações acompanhou o fortalecimento da aliança entre os Yine e os Manchineri - que a esta altura já havia sido criada - e foi revisitada no reencontro em Monte Salvado, em julho de 2012, marcando o aniversário desta comunidade Yine e a inauguração do posto de vigilância reformado e coordenado pela comunidade.  

Diário do Reencontro

A preparação para viagem começou no dia 09 de julho, quando planejamos a viagem em conjunto e combinamos de participar do ato político da FENAMAD, em comemoração aos 110 anos da cidade, surgida em território anteriormente indígena.    Por motivos logísticos, não conseguimos sair já no dia seguinte para Monte Salvado, mas dentro da idéia de fortalecimento das alianças, aproveitamos e fomos visitar os Manchineri da Comunidade Pastora, próxima à cidade e já começamos a trocar experiências, principalmente com as mulheres artesãs na produção de roupas com pintura Yine.

No dia 13 de julho, conseguimos sair de Puerto Maldonado e viajamos todo o dia trocando idéias, tendo escolhido pernoitar na Comunidade Yine Santa Teresita. Estavam comigo na viagem os Manchineri João Samarra Klipra, Roy Roger Gomes, Andrea Artur Cabral e Francisco Napoleão e, lá, já começamos a conversar e perguntar sobre os parentes isolados. Ficamos sabendo um pouco mais sobre o posto de vigilância, que é construído com o apoio financeiro da FENAMAD que oferece oficinas sobre a questão dos isolados, mas que é administrado pela comunidade que indica quem serão os Agentes de Proteção Ambiental, atualmente reconhecidos pelo Governo Regional de Madre de Dios em seu trabalho, bem como pelo Serviço Nacional de Áreas Naturais Protegidas (SERNANP), no Peru.

No dia 14, pernoitamos em Tipishca em outra Comunidade Nativa Yine. Nesta estada, aproveitamos para na manhã seguinte ter uma conversa com os parentes para explicar o motivo do intercâmbio, já que as pessoas das comunidades de passagem também estavam indo para Monte Salvado. Então, explicamos que a atividade era socializar as atividades e práticas Yine e Manchineri entre os indígenas e organizações participantes, já que todos compartilhavam a língua, a cultura e o conhecimento tradicional, de forma geral. Assim, nós da Terra Indígena (TI) Mamoadate mostramos o mapa participativo - etnomapa – que fizemos junto com a Secretaria de Meio-Ambiente do Acre. Eles gostaram da idéia de poder traduzir para o mapa tudo aquilo que fazemos na aldeia, como as aldeias se relacionam entre elas, como entendemos mesmo o nosso território e as relações com o entorno, que envolvem a própria fronteira. Com isso, decidiram em Tipishca que um jovem da comunidade participaria do intercâmbio para aprender mais sobre os mapas e as experiências dos Manchineri.

Continuamos a viajar no dia 15, e mais parentes se juntaram a nossa caravana para o intercâmbio nos dias 16 e 17. No dia 16 continuamos com a viagem e chegamos a Monte Salvado pela manhã, quando fomos bem recebidos com muita comida e bebida típica tradicional. Foi interessante porque ficamos hospedados no Posto de Vigilância e Proteção dos Índios Isolados. Pudemos entender que como o mapa é para a gente um instrumento político de garantia do território, para eles o posto também é, já que assim pode lidar com os parentes isolados, protegendo eles, e garantindo também que seu território não será invadido. Durante o resto do dia, participamos do aniversário da comunidade e também da comemoração de um ano de quando os primeiros isolados apareceram. Conversamos muitos sobre os parentes isolados e eles explicaram para a gente que os isolados não estão saindo mais perto da aldeia. Eles estimaram que os isolados são quatro grupos diferentes, sendo que todos são parte de um mesmo povo. Foi importante porque os Yine disseram que como a gente, eles, os Mascho Piro, encontram-se no verão, quando podem andar pé já que não tem canoa, para fazer festas tradicionais e visitar os parentes. Eles puderam ver isso cruzando o rio e observando os vestígios do outro lado do Las Piedras, onde os Mascho Piro adentram a mata e ficam no verão.  Segundo uma liderança de Monte Salvado, os isolados vivem mais permanentemente a uns três dias de viagem da comunidade.

No dia 17 de julho, os parentes Yine nos levaram para visitar o local onde os Mascho Piro aparecem. Eles nos contaram que conseguem se comunicar com eles na nossa língua e que, por gestos, o objeto que mais querem é o terçado. Segundo Teodoro Barga, líder da comunidade Monte Salvado, esclareceu que pelos rios, os isolados estão a três rios abaixo do Las Piedras, mas que eles saem na margem oposta à comunidade pelo rio Lidia Grande cuja desembocadura é vista da comunidade. De acordo com Segundo e seu pai, há outro grupo que vem do Rio São Francisco, mas que quando chega próximo da comunidade, o outro grupo que vive na margem oposta, dentro da mata, quase sempre se afasta, indicando conflito ou clara separação de territórios de uso e trânsito entre os grupos.

Neste mesmo dia, Segundo e Romel, Agente de Proteção do posto em Monte Salvado, também nos mostraram o local onde um Masco Piro flechou um jovem Yine recentemente. O local não chegava a um 01 km de distância da aldeia, mostrando que os isolados neste verão estão chegando mais próximos da comunidade. Com relação à comunicação, eles nos disseram que como nós compartilhamos a língua com os Yine, também poderíamos entender os Mascho Piro. Disseram que não há intenção de ataque dos isolados e que ao se aproximarem, estão interessados na tecnologia, apesar de não quererem muito aproximação, porque provavelmente tem medo.  

Depois de conhecer o lugar que os isolados normalmente transitam, nós Manchineri demos uma palestra sobre como elaboramos os mapas da nossa terra, como foi feito o plano de gestão territorial com base neste mapeamento para que a comunidade ficasse unida e trabalhasse em conjunto. Nós também apresentamos o mapa transfronteiriço feito pela CPI, onde mostramos as ameaças a nossa terra e por onde os isolados passam na TI Mamoadate. Os Yine refletiram sobre a minha apresentação e debateram entre eles que os mapas mostram em detalhe o que pode e o que não pode ser feito na comunidade no presente e a importância de um plano para o futuro. A partir disso, colocaram que vão articular e lutar para buscar parcerias para continuar a aliança com os Manchineri para que possam elaborar mapas com nossa assessoria. Os Yine acharam muito significativo ter o mapa de uso da comunidade como ferramenta de identificação dos problemas relacionados à exploração madeireira.

Nós, Manchineri, também ficamos ansiosos para termos uma oficina sobre a operação e construção do Posto de Controle e Proteção aos Índios Isolados em Monte Salvado. Para a gente, também seria interessante, pois há índios isolados transitando em nossa terra, mas nós não dispomos de uma estrutura que possa nos proteger e mesmo proteger os parentes isolados. Ainda que tenhamos legislação indigenista no Brasil e apoio da FUNAI por parte da FPERE, este instrumento seria importante para a proteção territorial e de todos os parentes no contexto do crescimento das ameaças em áreas de fronteira, que são nossas áreas de vida.

No dia 18 de julho, retornamos à cidade de Puerto Maldonado e ao repassar as informações em uma assembléia na FENAMAD com diversos povos indígenas de Madre de Dios, o povo Yine da Comunidade Nativa Diamante pediu que fizéssemos o mesmo tipo de trabalho em sua terra, mais próxima da Reserva Territorial Madre de Dios. Uma conclusão e compromisso ao qual chegamos enquanto ainda em Monte Salvado foi que os Yine e Manchineri do rio Las Piedras e do rio Iaco, respectivamente, devem tomar a responsabilidade de proteção dos índios isolados de suas regiões. Diante desta reunião, ficou claro que os Manchineri do Brasil com os Yine do Peru são parentes bem próximos. Para os Manchineri da TI Mamoadate ficou evidente a importância do trabalho em conjunto e a necessidade de se unir e lutar por uma causa comum, que é a proteção dos isolados, enquanto protegemos, cuidamos e desenvolvemos nosso próprio território de maneira comunitária e articulada.

Entrevista com Romel Yine, Agente de Proteção do Posto de Proteção e Controle em Monte Salvado

Romel apontou que os isolados chegam cada vez mais próximos da aldeia e que os mapas participativos seriam importantes para identificar as ameaças madeireiras que pressionam o trânsito de isolados


Quais são os tipos de objeto que vocês dão para eles? 

Nos não damos nem um tipo de objeto. São eles que mesmos que sempre pedem o  terçado. 

Qual é a reação deles no momento do encontro?

Se a gente não se aproxima deles, deixando eles se aproximar, eles conversam normalmente. Se nós pedirmos para eles que deixem a flecha no chão, eles vão deixar. Mas, se chegarmos muito perto, eles vão pegar e apontar em nossa direção. Agora, tem uma conversa que os madeireiros mataram eles porque eles apontaram as flechas. Há grupos mais agressivos, pois eles pensam que fomos nós que violentamos e agredimos suas famílias, conforme já aconteceu. Por isso, os isolados flecharam o filho do meu primo, já que pensaram que ele era da equipe dos madeireiros.

Eles saquearam alguns objetos de vocês?

Não, eles não levam nada. O que eles querem mesmo é o terçado e faca, que se eles pedirem, nós damos. Agora, outros tipos de objeto ele não querem. Nós demos  prato, colher, mas eles jogam no rio. Os nossos objetos eles nunca levaram. Contudo, tem uma estória que eles saquearam terçados dos madeireiros.

No momento de se comunicar com eles, vocês entendem bem?

Eles falam nossa língua materna. Se nós nos comunicarmos, é a mesma coisa de estarmos falando com vocês. Desde o primeiro contato, que a gente vem se comunicando na língua Yine. Só tem um porém: eles só respondem a pessoa que eles estão acostumado a ver mais. De outra forma, só vão ficar calados o tempo inteiro, assoviando ou resmungando. Falar, nem pensar. 
Em que época eles aparecem mais?

Tem um grupo que está sempre perto da aldeia. Tem outros três grupos que aparecem mais nesta época de verão, na desova do tracajá. Nos meses de julho e agosto, é a época de eles se encontrarem e visitarem os parentes, como estamos fazendo agora neste intercâmbio. Então, eles são como nós. Eles ficam mais na praia no verão e, no inverno, adentram a mata. 
Quais são os tipos de tapiri deles?

No tapiri deles, eles só colocam a folha de jarina em pé porque eu acho que é de utilidade provisória, já que eles andam muito.
O que eles comem?

Eles comer mais anta, jabuti, queixada, porquinha, macaco preto, macaco capelão e nós vimos algumas capivaras também. 

Que tipos de cerâmica eles utilizam?

Nós nunca vemos a cerâmica deles, quando eles estão perto da comunidade, pois eles só andam de passagem, não é moradia definitiva. Mas, já vimos um pote feito por eles, que é igual ao nosso, inclusive a pintura da mesma forma.

 

 
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