Uma luz no fim do túnel
Fazer turismo na Amazônia é uma tarefa muito cara. Empresas cobram preços altos por passagens aéreas
As companhias aéreas que operam no Acre com preços exorbitantes poderão ainda ter muita dor de cabeça. O defensor público Glenn Kelson Castro está reunindo provas das contradições das tarifas aéreas nos céus acreanos para entrar com uma ação cível pública. Assim, as coisas começam a tomar contornos oficiais e jurídicos. O fato é que não é mais possível um passageiro pagar num determinado dia R$ 220 para ir a Cruzeiro do Sul e no outro, R$ 700. Essas contradições têm que ser devidamente explicadas. As emergências não são consideradas. Ora, o consumidor é obrigado a só viajar quando planeja com muita antecedência? Como fica o direito constitucional de ir e vir? Se um trabalhador que ganha cerca de R$ 1.000, que já não é um salário mínimo, tiver uma situação familiar em que tenha que ir para o Juruá no mesmo dia não terá condições de pagar um bilhete que vale cerca de três quartos do seu salário. Como ele vai comer, pagar aluguel, manter a sua família? Alguém tem que pensar nisso com muita clareza.
Como o defensor é estadual, o questionamento começará com os voos dentro do Acre. Mas Glenn me garantiu que pretende mobilizar outros juristas que tenham jurisdição federal para o questionamento das tarifas dos voos interestaduais. Está na hora. Só a própria sociedade é quem pode defender-se de eventuais abusos. Ações como essas valorizam o Judiciário perante a opinião pública. Todos já estão pra lá de conscientes de que transporte aéreo no Acre e, na Amazônia em geral, não é luxo, mas necessidade.
Quando representantes do Judiciário estão atentos às solicitações das populações justificam plenamente os salários que recebem. Aproximam-se daqueles que devem ser os verdadeiros beneficiários dos serviços públicos. Quando o dinheiro da montanha de impostos que os cidadãos pagam é bem empregado, a gente começa a ter esperança de dias melhores.
Integração regional - Os empresários circulam livremente com tarifas baixas entre os grandes centros econômicos do Brasil como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, etc. Um dono de uma farmácia paulistano pode pensar em estender a sua rede para a Capital Carioca. Pode perfeitamente calcular quanto vai gastar por ano em despesas com viagem em treinamento de pessoal, supervisão das lojas, etc. Agora, qual o empresário que vai querer abrir um negócio num lugar onde a movimentação custará uma grande parte dos lucros?
Um pequeno industrial de Manaus tem todo o direito de querer abrir filiais regionais em Rio Branco, Porto Velho ou Belém. Mas a gente vê poucas empresas da Amazônia expandindo-se na região. O fator “isolamento” geográfico e econômico conta muito. Uma ida e volta de Rio Branco a Manaus pela Gol, na quinta-feira, 15, ficava por quase R$ 4 mil. Mais caro do que qualquer voo de Manaus para o exterior.
Além das iniciativas jurídicas os governos dos Estados do Norte deveriam unir-se mais para questionarem o governo Federal, através da ANAC, sobre essa cruel política de preços na região. As atitudes deveriam deixar de serem isoladas para tornarem-se orquestradas de acordo com o interesse da população amazônica. Parece difícil convencer o resto do país (e do mundo) de que existe uma Amazônia real que, inclusive, abrange países vizinhos como a Bolívia, o Peru, a Colômbia e o Equador. Parece que quando se fala da Amazônia ainda vêm aquelas imagens da National Geografic, Discovery Channel, Globo Repórter etc. Caras-pálidas, vivemos, sim, numa região exótica culturalmente, mas aqui as pessoas também vivem e trabalham normalmente como em qualquer outra parte do Planeta.
As malhas aéreas das companhias deveriam contemplar essa tão necessária integração. Tanto no transporte de passageiros quanto de cargas. Isso, melhoria em muito as condições econômicas dos habitantes da região. Um produto que tem de sobra no vizinho Peru, às vezes, está faltando aqui no Acre e, vice-versa.
Uma vez fui convidado pelo Banco Mundial para dar uma palestra em Iquitos, no Peru, sobre as condições de saneamento do Vale do Juruá. Demorei três dias para ir e outros dois para voltar. Um absurdo, porque se existisse um voo regular de Cruzeiro do Sul para Pucallpa, no Peru, a viagem não demoraria mais de três horas. São 45 minutos de avião monomotor do Juruá para a capital de Ucayalli. De lá, seria mais uma hora em Boeing para Iquitos. No entanto, tive que atravessar quase todo o Brasil do Acre a São Paulo, para depois subir pela América do Sul até Lima e, da capital peruana voltar em mais três horas de Air Bus até chegar, em Iquitos, na Amazônia peruana. Uma odisséia desnecessária e um desperdício de dinheiro, já que as escalas me fizeram dormir em hotéis em Porto Velho (RO), São Paulo (SP) e Lima.
A famigerada integração amazônica tem que sair dos papéis e dos discursos para tornar-se real. E, ela começa justamente com uma política de tarifas justas entre os estados e os países da Amazônia, além de uma malha aérea que contemple o comércio e a troca cultural das populações.
O Canal de Rodrigues Alves - O prefeito Burica (PT) vai passar um fim-de-semana rindo sozinho. Mal começou o seu governo e recebeu a noticia de que o senador Tião Viana (PT-AC) conseguiu a liberação de R$ 400 mil para obras de infraestrutura urbana. Burica já avisou que pretende fazer em Rodrigues Alves (AC) uma área de lazer nos moldes do Parque da Maternidade, em Rio Branco. A canalização de um igarapé que corta a cidade terá início nos próximos dias com o recurso que já está na conta da prefeitura. Ele já avisou que o dinheiro não dá para tudo, mas já é um bom começo. O exemplo é a avenida Mâncio Lima, em Cruzeiro do Sul, que já tem duas etapas concluídas e é o espaço urbano mais bonito da Terra dos Náuas.
Pão quente - O novo prefeito de Bujari, Padeiro (PMDB), assumiu com vontade de trabalhar. Ele está fazendo gestões para que no governo do Estado conserte as cinco principais máquinas pesadas para a manutenção das ruas e ramais do município. Ele está disposto a emplacar uma boa administração. Afirma que encontrou os cofres municipais “secos” e não está deixando sair nada lá de dentro. A política é só deixar entrar, por enquanto. Quando perguntado pelo seu partido, a resposta foi direta: “Eu fui PMDB radical até o último dia 5 de outubro. Acabou a eleição, a hora é de tomar o partido da nossa população. E para isso é preciso parceria com políticos de outros partidos que estão no poder.” Parece que a experiência de isolamento político da ex-prefeita de Cruzeiro do Sul não fez escola. Quem quiser sobreviver politicamente tem que pensar em democracia de uma maneira mais ampla. Legenda, só mesmo em tempos de eleições...
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