É tema que vai além da pena e da
tristeza de extravasar. Mas, como diz a velha música, tem dias que a gente
sente a roda-viva dar voltas do coração. Enjôa de fazer de contas que não
sente, ou de deixar algum bacana cheio de autoridade, pensando que a gente não
consegue entender seus planos fúteis, suas ações disfarçadas. Que pena! O
problema desta palavra autoridade é que um ou outro sujeito incorpora um certo
"ar supremo", um incerto "jeito de esperto", uma constante sede ou uma
inconstante fantasia, na qual a pose não sai de trás do verbo, mas o olho não
consegue ser fiel à pose, porque o intelecto não segura a onda da vaidade, que
é muito maior que aquele. É um problema. Se cada um tivesse prazer em fazer sua
parte e se contentasse com sua bagagem, o poeta alagoano não cantaria o "desdém
do poder".
Mas
quase todo mundo quer ser autoridade, ou ser mais do que é, do que lhe é
possível. Certo pastor quer ser deputado, se não der, vereador, se der, pregar
outras crenças. O assessor do assessor despacha para sua excelência, que diz
não ter tempo, mas não tem mesmo é vontade, quer mudar de poder, está em toda
solenidade, posa e sorri, louco para discursar, para se filiar, para se
candidatar. Certo médico, igualmente quer, é claro, receber uns votinhos,
porque também tem bons planos, de saúde e de vida, e vida não é coisa para
passar assim, só no traje branco. O homem que vende carne prefere outro filé,
mas não enjeita mamãozinho com açúcar. O homem do leite quer queijo, o homem do
boi quer as tetas da vaca, a vaca quer lavar o pé do sapo e o cururu tei-tei
quer ser rei. E eles pensam que a gente não vê!
O
doente não quer canja? Canja no doente! O salto para o futuro pode estar bem
ali em frente e cavalo selado não passa duas vezes na porta. O que importa é
pisar certinho no trampolim para liberar o esquema, sem nenhum problema. O
resto o poder exporta, nem importa. Dentista da boca da noite, professor de
doleiro, carregador de pilha, desempregado, sem vocação nem habilitação, mal
articulado ou recém-apossado, velho conhecido, novo disfarçado, muitos outros,
quase todos são atraídos pelo poder, pela autoridade, por algum desejo ou
fatalidade do destino que Deus está vendo. Deve haver uma enorme vontade de
ajudar, de planejar e de agir para o bem comum. Enorme e variada, que de tanto,
parece generalizada. O ponto de partida é o umbigo. Se cada um, com prazer e
jeito, caregasse sua bagagem ...
Para
não perder os ideais, o socialista quer eleger a família quase toda, neste,
naquele e no outro cargo. A associação disso e daquilo precisa de um
representante, a classe desses e a daqueles, o grupo e o conjunto unitário,
todos são expressões que precisam, por completa redundância, de voz que os
expresse. O cabo velho quer receber
continência, o coronel quer votos, o homem da televisão, a mulher da ilusão, o
cara do barzinho, o da armação ilimitada, o da reputação ilibada, que não pode
freqüentar certos lugares, pensando na autoridade. Quase ninguém pode ler sua
intenção, ele diz ser criativo. E se conseguir, do que adianta? Enquanto tudo
parece normal, um rapaz ensina democracia em vinte segundos e um jornal aponta
o voto certo em cinco linhas. O poder da mídia precisa de retorno. Precisa ser
imparcial?
Quase todo mundo
gosta de saltar de trampolim. Ou, refazendo, de usar o trampolim para subir,
apesar da possibilidade muito provável da queda livre, depois da subida. É
quase incrível como a definição atual do trampolim atrai somente pela subida.
Na versão primitiva, usado o trampolim, após um salto para cima, a ocorrência
imediatamente posterior era a da queda invariável. Modernamente, o trampolim
adquiriu a faculdade, ao menos em tese, de provocar um ou vários saltos que
parecem renovar-se no rumo de cima, sem previsão imediata de queda, ao menos na
perspectiva dos saltadores inscritos na fila em que a vaidade posou de
desinteressada, em nome da lei, da ordem, da fé, ou de outros conceitos éticos,
sacros, inconfessos. Talvez o problema esteja no poder do conceito. Ou em onde
o estamos vendo.
- Você não é besta não, menino. Eu quero lá saber de neto meu metido em jogo, com o Stélio ou com qualquer outro cabra. Ora muito obrigado, só me faltava essa!
- Mas vÿ, é aqui perto, no campo do Rio Branco, e só de tardezinha, o sol já tá frio. E lá só tem gente conhecida. De manhã, eu vou sempre pra aula.
- Só se for mesmo. De tardezinha, eu quero você é banhado, cabelo bem penteado, como um doutorzinho, pode até sentar ali na lanchonete, pedir uma fanta, todo mundo vai ver e dizer: ‘olha lá o neto do velho Lauro, menino distinto, chega dá gosto’. E esse negócio de fanta é agora, no meu tempo era garapa ferrada. Deixa esse negócio de futebol pra lá, isso não dá camisa a ninguém. Você ainda tá muito verde para compreender o mundo. Quando pensar que não, já passou da hora. E o mestre mundo não brinca, presta bem atenção. Teu amigo sou eu. E puxa daqui!
- Tá bom. Então o senhor deixa eu ir ali na praça, só um instantinho?
- Olhe lá, não vá se meter em camisa de onze varas ... Mais tardar sete horas eu quero você aqui, seu Sacana Branco! Se o comissário aparecer, diga que é meu neto e venha embora, sem dar conversa a ninguém. Muito cuidado!
- Tem um dinheirinho aí?
- Hum ... Pera aí ... Eu vou te contar uma coisa, viu menino. Olhe, a Dona Maria me disse que você estava fazendo arte lá no quintal dela, lá pela pitangueira, lá no terreiro das galinhas, me conta aí essa história, que eu já tÿ pra não deixar você arredar daqui. V’ambora logo!
- Que nada, vÿ. Foram só umas pitanguinhas. Eu tava mesmo era com a baladeira atrás de calango. E ela tava lá no quarto das rezas, aquele da frente, cheio de santo e de vela. A Edine até falou comigo, me chamou de Guguto ...
- Olhe lá, hein ... Vem cá, me dá um cheiro no cangote. Tá vendo aqui, o barbeiro me cortou com a navalha. Depois vá buscar a Água Velva, a Seiva de Alfazema. Taí cinco contos. E não me passe da hora! Não esqueça que mais tarde vamos comer as esfihas aí do turco. Cuidado com os carros na esquina!
- Que nada, eu vou devagar ...Não vou nem de bicicleta.
- É, mas ainda não esqueci daquela história dos barbeiros, que você ía sendo atropelado aí no Cine Acre. Você nasceu de novo naquele dia. Olhe que nem todo dia é dia santo. Lá na Radional só vive virando carro. E o Severino me disse que tem muito motorista tonto por aí, parece que andam com o bicho na capação.
- Ora, vÿ, aqui quase nem tem carro. Fora os de praça, só tem mais é Jeep e Rural, aqui e acolá é que aparece um Aerowillys, um Itamaraty. Novo, só um corcel ou dois, o resto é fusca, igual àquele do professor Pojucan, só que o dele é 66 mas parece 69, a diferença tá nos para-choques.
- Pois bem. Conversa mole é pra quem tem dinheiro, é pra pai da moça. Capina, puxa daqui! Mas olhe lá, vou marcar o tempo, hein! E não pense em tomar rumo, nem pras bandas do Bosque, adiante do Meu Cantinho, nem lá para baixo, no rumo do Municipal e do Cine Rio Branco. Do lado de lá do rio, nem invente. Olhe o que eu disse do mestre mundo. E venha logo, eu vou ma rcar o tempo!
- Ta bom, vÿ, pode deixar comigo.
E o vÿ deixou mesmo, muita saudade, um grande exemplo, o eterno sentimento. Tomou rumo em 1979, quase com 77 anos de vida. Destemido e obstinado, viveu menos do que poderia, porque teve vida dura, mas sempre viveu com prazer, sem grandes ilusões nem fantasias e de forma útil. Seu amor disfarçado em conselhos e em preocupações até hoje emociona. Seu jeito simples e decidido, seu olhar terno e firme, seu gesto resoluto e carinhoso, sua disposição constante para trabalhar, produzir, encarar desafios e vencer, constituem modelo incomparável para a gente levar a vida, para ir seguindo.
Sua história o revela como desbravador do Chandless, de grande parte da região de Manoel Urbano, de grande parte do Purus, como regatão, delegado, juiz de paz, coronel de barranco, seringueiro e seringalista.
Em Rio Branco, fez política e exerceu o comércio, quando tudo estava por fazer e a cidade era pouco mais que uma aldeia. Ajudou a fundar a Teleacre e várias associações e empreendimentos. Cravou marco histórico no comércio do centro, com estabelecimentos diferentes, atuando em vários ramos, como gêneros de alimentação, tecidos, material de construção, eletrodomésticos e produtos de perfumaria, tendo ainda deixado pronto um empreendimento para hotelaria. Foi pioneiro na Estação Experimental, que ajudou a desenvolver e expandir, também atuando em vários ramos comerciais.
Grande pai, bom homem, querido amigo. Sua vida também o revela como parte da história do Acre. E como fundamento das principais histórias que tenho vivido e contado. Com efeito, ele marcou mesmo o tempo. Conhecia bem o mestre mundo, assim como conhecia os estirões dos rios, as colocações das estradas de seringa, as esquinas das ruas e da vida e os mistérios dos varadouros que percorreu, sem jamais perder a imponência simples de castanheira. Seu Lauro, coronel Lauro, velho Lauro, só mesmo o mestre mundo para calejar a gente com o sentimento, enquanto a marca do tempo segue tomando rumo. Agora, só conversa mole e saudade.
Escrito por José Augusto Fontes - jafontes@osite.com.br
15-Ago-2010
Gente pequena e simples, que o olho não mente
Que quer cumprir obrigação, conquistar cada dia
Andando aí pela vida, beirando, sem sair do chão
Gente que tem muitas fomes e tem simples nome
Vontade de subir na vida, andando pra não chegar
Olhares dispersos, meio perdidos na multidão vazia
Confusão que não vai acabar, na idéia que consome
No meio do nada absoluto, relativamente, meia gente
Um número identifica, outro voto significa condição
Para essa gente estar num programa e na verificação
Do nosso frio olho que não sente, e apenas fotografa
Do nosso jeito ausente que silencia, fingindo emoção
Do nosso gesto que tropeça e cala, enquanto escreve
Na nossa sensibilidade perdida, muda e insuficiente
Essa gente é assim deixada para perder, e se desfazer
Gente que parece estar no nosso olhar, simplesmente
Parecia estar, depois passou, mudou, ficou sem graça
Nesse olhar que não sente nem vê, enquanto disfarça
Num qualquer sistema feito para perder, a gente perde
Para o nosso jeito de ganhar que vence, enquanto mente
Ver você é como olhar para o ‘mar de dentro’ em Noronha
É beleza própria, pertinente, de que nasce tamanha semente
O gostar vira uma ilha, a gente guarda pra sempre a riqueza
Passear os olhos em você é vagar sem quilha e perder a dor
Se te pego a mão a sensação é Fortaleza, diferente imensidão
É andar nas areias do futuro, agitação e sutileza, só artimanha
Um verde cor de natureza faz sem jeito o coração estremecer
Amar você é ter ilusão medonha, é um nó que não sei desfazer
Estar com você é dançar em Salvador, e nisso passo do amor
Toda alegria te quer, a revolução desgoverna, tudo se contagia
A correnteza arrasta, mas ela não me basta, se não te vejo a cor
Cantando te beijo, meu bloco vira desejo, vou dizer e acontecer
A melodia perfeita, a festa da minha eleita, uma nobreza vadia
Gostar é deitar com você em Copacabana, a cigana que alumia
Querer no Rio é violar a barra do teu vestido, trançar o sentido
Meu samba sussurra no teu ouvido, minha jura penetra tua flor
Namorar você é filosofia e furor, isso me deixa quase incontido
É sempre desafio, em Sampa faz frio, na minha aldeia é só calor
É tempo de plantar nossa estação, eu e você, nossa canção é festa
Ela nos diz poesia, nosso tudo mistura noite e dia, vira realização
Qualquer paisagem é adorno, é só para ilustrar a nossa imensidão
Tudo vigia nosso caminhar, nossa floresta, com direção e sentido
Amar é uma viagem, quase me perco. Ter você me deixa distraído