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Ponto-e- Vírgula - 02-09-2010 Imprimir E-mail
Escrito por Val Sales valsales@pagina20.com.br   
02-Set-2010

Lugares e sabores do Acre

Cheguei à redação do Página ontem e encontrei uma jaca – molinha, suculenta – na cozinha. Dei aquela arregalada de olho pra Maria – que cuida da gente aqui com o maior carinho – e dona da jaca e, acredite leitor, devo ter feito uma cara de “pidona” tão forte que a Maria, cinco minutos depois, tava com os caroços da jaca em um prato. Não vou negar: comi um monte. Só não comi mais – olho de gordo é sempre maior que a barriga – porque jaca é forte, e eu sou gulosa, mas não sou doida, né?
No último fim de semana, pude saborear muitos dos sabores do Acre que fazem parte da memória e dos melhores anos da minha vida. Em Sena Madureira provei uma legítima broa – só quem é de lá sabe o que é – com café preto. Pense num pão bom e um bolo de trigo daqueles feitos na fôrma redonda com um buraco no meio, que tinha um gosto bem parecido com o bolo da minha mãe, dona Marlene (só ela faz o melhor bolo de trigo do mundo. É sério!).
Daí que chegou o sábado e de madrugada, em Capixaba, comi ovo caipira com pão de milho (cuscuz é coisa de gente chique, sou do tempo do pão de milho) e café. Mas nada disso se compara ao prazer gastronômico da legítima culinária – de alta qualidade – acreana que me aguardava domingo no ramal do Icuriã.

Jardim de Deus - O seringal Icuriã, para quem não sabe, é um dos mais lindos jardins que Deus deixou nesta terra. Está localizado nas cabeceiras do rio Iaco. Fica num prado lindo  entre o fim do Vale do Acre e o início do Vale do Iaco. Lá foi realizado o primeiro “empate” do Acre. Para “pegar” o ramal do Icuriã é preciso sair cedo de Brasileia. Saindo de Assis Brasil – na entrada da cidade – são 70 km de subidas e descidas, altos e baixos, solavancos e uma linda paisagem. O ramal corta, literalmente, a floresta, ainda selvagem, da Reserva Extrativista Chico Mendes.
A primeira parada foi no igarapé São Pedro. Não eram 8 da manhã, mas a água límpida, escura e fria com corredeira – se você não conhece o acreanês terá de perguntar a terceiros do que se trata – me convidada a um mergulho. Resisti heroicamente à ideia de banhar-me naquelas águas, mas não à descida de uns 50 degraus – verão, tempo seco, água lá embaixo - debaixo da ponte para, pelo menos, olhar de perto. Bãaao, que só vendo!
Chegamos à casa do seu Altemir Tavares - um típico cearense que mora nas brenhas do Acre desde os 18 anos e que aprendeu a amar e respeitar a floresta - meia hora depois. Seu Altemir conversa, conta história da sua colocação e do jardim que está plantando só com árvores típicas do Acre – aguano, seringueira, castanheira, cumaru, pau-de-ferro etc. O lugar é bonito, tem muitas fruteiras. Seu Altemir produz abacate, laranja, tangerina, abacaxi. Olho para o pé de laranja e lembro da infância. Zé Luis – Abrahão – me lembra que aquela não é na legítima laranja-da-terra, pois tem casca grossa, não é boa de comer. Decepciono-me, mas sigo em frente.

Quebra-jejum - De repente a ruma de gente que viajava comigo e fazia um barulho besta no terreiro desaparece e um quase silêncio toma conta do lugar. Vou entrando pela porta e vejo de longe um fogão de lenha e “as pessoa” sentadas numa mesa. Leitor, tu não imagina! Seu Altemir preparara um legítimo quebra-jejum seringueiro para recepcionar os convidados!
Já não ouvia mais a voz do João Paulo, o barulho da máquina fotográfica do Sérgio Vale, o oi tudo bem do Diego e, acredite, até o Jorge Viana tava “mudim”, “mudim” num canto da mesa. E, por incrível que pareça, quem abriu a boca para me falar da festança gastronômica foi o governador Binho Marques, que é sempre calado.
Na mesa, banana-comprida cozida, macaxeira frita, arroz, farinha, banana-comprida frita, bodó de trigo - daquele típico mesmo, que parece sola (nada de bolinho de chuva) -, banana-prata, banana-maçã e mais um monte de guloseima. Para beber, vários sucos e patuá. Do patuá tô fora, penso. Ainda faltavam 50 km para o Icuriã e eu, que não sou besta, não queria correr riscos nos solavancos do carro.

Alta gastronomia- No meio da mesa, uma panela de suco de graviola me chamava. E eu prontamente atendi ao chamado. Delícia! Confesso que tinha esquecido como era o sabor da fruta fresquinha, aquela recém-tirada do pé. Lembrei a festa que fazíamos  do fruto com açúcar (nunca experimentou? Não sabe o que está perdendo). Mas o que eu comi “do vera” mesmo, lá na casa do seu Altemir, foi a costelinha de porco frita com farinha. Eu só, não. Todo mundo. Pessoas, vocês não têm ideia do sabor. Tava tão bom, mas tão bom, que a turma perdeu a cerimônia.
Entre uma comunidade e outra, tomamos café fresquinho feito no fogão de lenha e, para completar a epopeia gastronômica, depois de infinitas reuniões, milhares de discursos, chegamos ao Icuriã, onde almoçamos. Outro banquete nos aguardava. Um carneiro  assado - costelinhas, inclusive -, peixe pescado do rio no dia anterior, galinha caipira, salada com tomate da terra e a água da vertente. Tínhamos água à vontade nos carros, mas o calor e a distância, aliados aos longos discursos no sol a pino, detonaram todo o estoque. No fim da reunião no Icuriã  tínhamos água apenas para a volta e, assim mesmo, em pouca quantidade.

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Vertente - Tanta autoridade – além dos agregados –  deixou a dona da casa preocupada, pois não tinha água mineral para atender a todos. Quando bateu a sede fui à cozinha. Tinha um filtro daqueles São João – sabe qual é?. Pedi um copo e a moça, um tanto constrangida, pois queria servir água de “boa qualidade” pras visitas, disse que sim. Nesse momento um dos moradores do seringal me olha e diz: “Dona, essa água aí é boa, mas boa mesmo é essa aqui da panela. Os `minino` trouxeram da vertente agorinha mesmo”.

Eu, que não sou besta e tomei muito banho de cuia na colônia do meu avô Sabá Jovino, lá na beira do Caeté, não me fiz de rogada: peguei um copo e enchi daquela água límpida e cristalina. Só quem bebe água de vertente – temperatura agradável, nem quente nem gelada demais – sabe o valor de um copo daqueles.
De volta à cidade, ainda tive direito ao tacacá da praça do Quinari. Coisa melhor não existe. Ontem, na redação, depois de “encher o bucho” de jaca, fiquei pensando em como temos uma culinária  regional – sucos, frutas, pratos variados – rica e saborosa.
Lembrei o Anderson Santos, presidente da Abrasel e dono da Toca do Lobo, que recentemente fez pesquisa sobre os pratos da legítima gastronomia acreana. Anderson, querido, inclua a costelinha de porco frita à moda seringueira! É de comer rezando!
Leitor, desculpa aí, mas vou ali comer um quibe de arroz, que essa conversa me deu uma fome besta!


 

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