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Durante minha infância e parte da adolescência, era rotina todos os anos irmos visitar uma tia de meus avós que morava no Rio de Janeiro. Tia Umbelina era uma senhorinha de aparência frágil, cabelos grisalhos e de pouca conversa.
Sempre que nos dirigíamos a seu apartamento o mesmo tema era parte da conversa: a trágica morte de sua filha. A história sempre me comovia e isso fez com que eu nutrisse um sentimento de carinho por aquela senhora e mesmo criança era de bom grado que trocava as brincadeiras pela visita.
A filha de tia Umbelina se chamava Rosalina da Silveira, tinha 19 anos, era professora primária. Certo dia, um preso por nome de Lázaro, condenado por homicídio em um seringal onde trabalhava, ao ver a jovem a caminho do trabalho, se apaixonou por ela.
A família Silveira morava numa casa que ficava na Avenida Getúlio Vargas, nas proximidades entre onde hoje temos a Livraria Nobel e a loja do Boticário. Nessa época a penitenciária funcionava no centro da cidade, onde hoje está localizado o prédio da prefeitura de Rio Branco. Lázaro e mais alguns presos tinham a função de capinar em volta do prédio e foi num desses dias de trabalho que ele avistou Rosalina.
Um jornalista conhecido de Lázaro, ao saber do amor do preso pela professora, se prontificou a fazer o elo entre os dois e disse que passaria a escrever cartas de amor em nome do homem condenado.
Se foi brincadeira não se sabe, mas o certo é que cartas saíam e chegavam do presídio, sem que a professora sequer soubesse de nada. Alguns contam que o tal jornalista, que se chamava Praxedes, também se apaixonou pela moça e por isso não entregava as cartas do preso à jovem Rosalina.
O certo é que o amor do preso se transformou em ódio, já que a moça, ao passar todos os dias para o trabalho, não demonstrava por ele o mesmo carinho que embutia nas cartas. E, claro, nem poderia fazê-lo, pois nada sabia sobre as armações do jornalista.
Foi então que no dia 25 de novembro de 1941, ao sair de casa, Rosalina foi assassinada a golpes de terçado por Lázaro, que em seguida também tentou suicídio. A mãe (tia Umbelina) assistiu à cena sem nada poder fazer e desde esse dia se tornou uma mulher bem mais calada do que o de costume.
Do jornalista não se teve mais notícias. Do preso, uns contam que foi transferido para o Rio de Janeiro; outros, que ele foi encontrado morto em sua cela. Já Rosalina de Sousa Silveira deu nome a uma escola na zona rural de nossa capital. Tia Umbelina, com o restante da família, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde viveu até o último dia de vida, carregando no rosto um olhar triste e distante.
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