|
Escrito por Thor Dantas
|
|
21-Out-2012 |
|
Com as eleições municipais se aproximando agora de seu momento decisivo, com apenas dois candidatos, a disputa se aquece, os argumentos se exercitam, o debate se acumula, as motivações se evidenciam... e está nas mãos da cidade de Rio Branco acertar em sua escolha, pois não poderá ser refeita pelos próximos quatro anos.
Os motivos para votar em Marcus Alexandre são por demais consistentes. Sua candidatura faz parte de um projeto político que transformou positiva e radicalmente o estado do Acre. Mesmo a oposição é obrigada a admitir, tomando cuidado quase extremo ao criticar este projeto, pois seu reconhecimento é unânime por parte de observadores os mais diversos, incluindo críticos rigorosos. Contra fatos não há argumentos, como diz a sabedoria. O estado é outro. Mais organizado, mais produtivo, mais desenvolvido, mais respeitado, mais bonito... Essa transformação foi possível, em grande medida, por causa de uma extrema eficiência administrativa. O êxito político não pode ser desprezado, muito pelo contrário. A FPA sabe fazer política de forma bem eficiente, isso é fato. E isso conta de forma decisiva, obviamente. Mas, dividindo a confidência que certa vez ouvi de um médico e político (felizmente para o anonimato da fonte não são poucos), política é relativamente fácil de fazer. Com meia dúzia de regras básicas você é capaz de se virar adequadamente... difícil, difícil mesmo, é a Medicina, completou. Outra máxima da gestão pública sempre lembrada é útil neste caso: transformar um bom gestor técnico em político não é muito difícil. Bem mais difícil é transformar um político em um bom gestor técnico.
Para mim é claro que o que faz da FPA um projeto exitoso já há tantos anos, é sua capacidade de aliar à competência política uma inseparável competência administrativa. A FPA tem mostrado que é muito boa em gestão e Marcus Alexandre despontou como um de seus melhores quadros justamente neste quesito. Suspeito inclusive óbvio que este tenha sido um motivo decisivo na escolha de seu nome dentro da FPA, pois assim como Raimundo Angelim deixa seus dois mandatos com um legado de aprovação pública beirando a unanimidade, também, como ele, os próximos nomes da FPA à prefeitura de Rio Branco, para serem exitosos, devem demonstrar inequivocamente sua competência administrativa.
Marcus Alexandre é competente, dinâmico e, ficou claro nos debates, conhece hoje todos os principais problemas da cidade de Rio Branco em detalhes. Não há sombra de dúvida que é, em si, uma excelente escolha para administrador desta cidade.
É possível ouvir no debate cotidiano o que tenta se constituir no que seria o único argumento contrário ao voto em Marcus Alexandre: o de que, após tanto tempo passado, há certa acomodação no poder da FPA e alguns erros precisam ser corrigidos (notadamente na relação com a massa que faz, por assim dizer, mesmo descontado todo o corporativismo resistente). Em que pese ser provavelmente verdadeira essa observação (e um claro movimento de correção de percurso se percebe em andamento dentro da FPA), ela não consegue ser motivo em absoluto suficiente para a escolha contrária ao voto em Marcus Alexandre. Não se tenta resolver um suposto problema criando um maior ainda. Seria um erro grosseiro, imperdoável. A função de prefeito exige competências de gestão mais do que qualquer outro cargo eleitoral. Uma cidade precisa, acima de tudo de um bom administrador. O prefeito já foi comparado ao síndico de um enorme condomínio e cidades universitárias e grandes parques produtivos e/ou de serviços, todos tem sua prefeitura para a gestão adequada da convivência coletiva em território.
Se o objetivo é o contraponto político, necessário diga-se, elejam parlamentares de oposição, capazes do contraditório (de preferência em alto nível, o que não anda, convenhamos, muito fácil de achar). É no parlamento onde os grandes debates se dão, onde a oposição de idéias se faz e a nossa ainda imatura democracia política de coalizão se constrói. Não na administração de seu bairro, sua rua, sua cidade. Aqui a disputa política partidária pode ser extremamente prejudicial para a vida cotidiana de todos nós. Aqui precisamos de gestão eficiente (o prefeito e sua equipe) aliada a recursos suficientes (a parceria com os governos Estadual e Federal). O que só é possível enxergar na candidatura de Marcus Alexandre.
Chame, chame, chame! chame quem ainda pode ter alguma dúvida, pois este é claramente um bom exemplo de quando o que vale mesmo a pena é deixar de lado o duvidoso e discutível e ficar com o que é certo e inquestionável.
Médico
|
|
Escrito por Zuenir Ventura
|
|
21-Out-2012 |
|
Achava que era só aqui em casa, ou em outras poucas, que a mulher decide, que dá as ordens, que é em suma quem manda. Aí vem o último Censo Demográfico com dados mostrando que o fenômeno é mais geral, pois o número das chefes de família dobrou em uma década: pulou de 9,048 milhões para 18,617 milhões entre 2000 e 2010, enquanto o de homens chefes de família permaneceu praticamente o mesmo: 31 milhões.
Num país machista como o nosso, o fenômeno é no mínimo curioso, e as razões apontadas são econômicas.
Segundo o técnico do IBGE Gilson Gonçalves de Matos, a mudança representa um avanço, porque reflete maior presença feminina no mercado de trabalho e melhor nível de escolaridade.
Os dados revelam também que houve outras mudanças importantes na família brasileira, como o aumento das uniões informais, dos casamentos inter-raciais, das separações e dos divórcios.
Um terço dos brasileiros que vivem uma relação conjugal não formalizou o casamento no civil nem no religioso. A união consensual foi a única que teve crescimento na década, passando de 28,6% para 36,4%, enquanto a proporção de pessoas casadas no civil e no religioso, no mesmo período, caiu de 49,4% para 42,9%.
Mais do que o fim do casamento, como apregoam os pessimistas, o que essas transformações indicam é o declínio do velho modelo patriarcal, com os papéis bem definidos, o homem como único provedor e a mulher na condição subalterna de dependente econômica, emocional e psicológica — o modelo “Amélia”, que achava bonito não ter o que comer.
Aos que acreditam na decadência moral da sociedade e na dissolução dos costumes pode-se contrapor uma pesquisa recente do Datafolha, que mostrava a família como uma das instituições mais valorizadas. Quase sete pessoas em dez (69%) afirmavam que ela era “muito importante”.
O sintomático é que a família conquistou essa confiança não porque ficou mais rígida e careta, mas, ao contrário, porque aumentou sua tolerância em relação a temas como virgindade, relacionamentos homossexuais, sexo antes do casamento, namoro em casa, gravidez de solteiras. Por exemplo: 55% não viam problema em que a filha solteira não fosse mais virgem.
No “meu tempo”, mulher separada era estigmatizada. Hoje, conheço várias que já se casaram e se descasaram duas, três vezes, e em suas casas é comum ver reunidos irmãos e meio-irmãos, maridos e ex-maridos, esposas e ex-esposas, pais e padrastos, tudo na mais perfeita harmonia.
Jornalista
|
|
Escrito por Milton Nogueira
|
|
20-Out-2012 |
|
Tribunais, uma invenção humana, também ficam doentes. Nas últimas décadas, vários tribunais se perderam, cometeram barbaridades e passaram a se meter com políticas atrasadas. Uma verdadeira patologia, contrária ao espirito das leis e aos anseios de justiça neutra e cega. Uma vez doente, o tribunal dificilmente consegue cura.
Eis algumas doenças que afetam os tribunais.
Tribunal espetáculo
Stalin mandava prender a pessoa sob acusações falsas, e a enviava a um tribunal de juízes sectários. Achem o acusado, dizia ele, que acharei o parágrafo. Do pódio, três juízes perguntavam coisas triviais- você fala bem o russo? Já conversou com estrangeiro? Está contente com seu chefe? As respostas, quaisquer que fossem, eram apresentadas como prova contra o réu. Se fala bem o russo, porque se meteu com…? Se não fala bem o russo, porque se meteu com…? A cada tentativa de se explicar o apavorado réu se enredava mais. Chamados de show-trial em inglês, os tribunais eram transmitidos por radio para toda a União Soviética, justamente para amedrontar o povo. Não era tribunal justo, era o terror sob o manto de juízes. Algumas dezenas de milhares morreram.
Os tribunais da Alemanha dos anos 30 faziam o mesmo, com um toque de arapongagem, denúncia anônima, delação de vizinho. Juízes lenientes inquiriam, Salomão, você foi à sinagoga? Se sim, você deve ser judeu e não é bom cidadão do III Reich. Se não, você está mentindo e não é bom cidadão do III Reich. O réu era sempre condenado, sob microfones de radio e câmeras de filme que tudo mostravam em vinhetas antes das sessões de cinema. Hollywood ainda não se cansou de contar essa história.
E no Brasil, como estamos?
O tribunal do faz-de-conta
Mock trial em inglês, acontece quando o juiz entra em sala com a decisão já tomada e deixa de fora provas essenciais ao processo. Caso famoso foi o Monkey trial, um bisonho tribunal que, ha um século, condenou um professor que explicava a evolução das espécies em escola primaria de uma região atrasada dos Estados Unidos. O juiz, cristão radical, condenou o professor mas, antes, rejeitou o testemunho de geólogos, arqueólogos, botânicos, médicos, historiadores, porém acatou o de fazendeiros que afirmaram haver sido a Terra criada há quatro mil anos, às nove horas da manhã. Foi também um dos mais divertidos shows de rádio do país. Próxima atração: o filme “O Vento Será Tua Herança”.
No Brasil, os tribunais da época da ditadura condenaram centenas de réus por atos políticos que sequer eram crimes.
E no Brasil, como estamos?
Circo da mídia
O julgamento de O J Simpson durou meses sob holofotes das TVs dos Estados Unidos e por isso foi chamado de media circus; esse tipo de tribunal roda como espetáculo, muda o horário das próprias sessões para atender ao noticiário nacional das TVs, repete a cada meia hora as imagens dos advogados em cena. A injustiça é cometida quando a mídia, sob o imperativo de não parar o espetáculo, acaba influenciando as testemunhas, as provas, os peritos, os jurados e os próprios juízes. No caso Simpson, o juiz fez plástica facial para aparecer bem, perante as câmeras.
No Brasil, como estamos?
Tribunal abortado
Um tribunal aborta quando o juiz erra tudo, não define claramente qual é o verdadeiro crime, vacilando entre alegações, especulações, suspeitas e indícios sem prova. Caso famoso, hoje no currículo de alguns cursos de direito, foi o dos Irmãos Nave, acontecido em Minas Gerais dos anos 40. Acusados de haver assassinado um homem, os irmãos Nave foram torturados até confessarem. O juiz sequer perguntou se alguém havia visto o cadáver mas, mesmo assim, os condenou. Da cadeia os Naves só saíram muitos anos depois, quando o homem reapareceu na cidade. Ele havia fugido sem avisar a ninguém.
Outro exemplo de aborto de justiça foi a condenação de Nelson Mandela à prisão perpetua por tribunal racista do apartheid, em cuja sala negros não entravam.
Os tribunais, constituídos de seres humanos, às vezes ficam doentes. Como estamos no Brasil?
Revista Carta Capital - artigo originalmente publicado em: http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-patologia-dos-tribunais/
|
|
Escrito por ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE
|
|
19-Out-2012 |
|
Não é defender os mensaleiros, mas não deveríamos também censurar os governantes que compram a “governabilidade” distribuindo cargos e emendas?
A afirmativa de que os fins justificam os meios sempre foi vista como antiética. Todavia, em nosso cotidiano, vemos exemplos claros dessa prática, que não censuramos.
Quando Fernando Henrique Cardoso foi pela primeira vez eleito presidente, José Serra, então seu fiel escudeiro, perguntado por um repórter se estaria preocupado com a “governabilidade”, respondeu que não, pois dispunha-se de 20 mil cargos.
Entenda-se que estes cargos seriam distribuídos para obter governabilidade, o que significa apoio no Congresso, em votações que fossem de interesse do Executivo. Ou seja, governabilidade por distribuição de cargos não seria apenas um eufemismo para compra de votos?
Um desses cargos sem concurso corresponde a um salário entre R$ 5.000 e R$ 15.000 por mês, digamos uma média de R$ 130 mil por ano. Os 20 mil cargos durante um mandato de quatro anos somam R$ 10 bilhões. Frente a tal valor, o total do mensalão é uma ninharia.
Ora, o professor José Serra estaria dizendo que dispunha dessa imensa quantia de dinheiro público para comprar governabilidade -ou seja, apoio em votações de interesse do governo. Será que isso é diferente, em sua essência, da compra de votos como interpretada pela STF no caso do assim chamado “mensalão”?
Uma outra forma generalizada de “compra de governabilidade” é através das chamadas emendas parlamentares. Consideremos para ilustração o seguinte exemplo: ainda no primeiro mandato de Fernando Henrique, foi formada uma comissão mista do Congresso para aprovar o contrato que suportaria a implantação do “Sivam” (Sistema de Vigilância da Amazônia).
Fui escalado para representar a oposição ao projeto. O contrato com o Eximbank que forneceria e forneceu os recursos atribuía ao Brasil apenas a responsabilidade das obras civis, conferindo às indústrias dos Estados Unidos e da Europa a confecção de todos os equipamentos, embora já existisse uma indústria nascente brasileira no setor.
A intenção de sonegação de transferência de tecnologia para o Brasil ficava óbvia em um artigo do contrato que dizia que se qualquer equipamento não pudesse ser produzido nos Estados Unidos, ele poderia ser encomendado em qualquer outro país, exceto o Brasil.
Essa obscenidade teria sido suficiente para que qualquer parlamentar com um mínimo de patriotismo, para não dizer dignidade, repudiasse a proposta americana.
Pois bem, o projeto foi aprovado sem objeções. Na semana seguinte, a Folha DE São Paulo publicou a relação de emendas parlamentares liberadas imediatamente após a votação e os respectivos nomes dos congressistas que tinham votado favoravelmente.
O único critério para as ditas liberações foi, inquestionavelmente, o voto favorável, ou seja, votos foram comprados com dinheiro público.
Esses e outros múltiplos dispositivos, igualmente inquinados, são generalizadamente adotados igualmente por impolutos e ímpios políticos no Brasil. Apenas não são tão explícitos como aquele do dito mensalão, pois sabem manter as aparências. À mulher de César basta parecer honesta.
Que a simplista exposição aqui apresentada não seja entendida como escusa aos atos dos assim chamados mensaleiros, mas antes como alerta para a sociedade a respeito das múltiplas e corruptas formas, já banalizadas, de compra de voto que frequentam o Congresso.
Físico, é professor emérito da Unicamp, pesquisador emérito do CNPq e membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia e do Conselho Editorial da Folha de São Paulo
|
|
Escrito por MARIO CHIMANOVITCH
|
|
18-Out-2012 |
|
Hoje, tratam o velho como um estorvo. Jornalistas ‘das antigas’ são desprezados. Para os jovens, tudo está na internet, e lá não há velho chato. Estou sobrando
Como velho jornalista da velha escola, aquela que nos ensinava na unha e nos cascudos de chefias que acatávamos sem chiar, gratos por podermos conviver com nomes cujo simples som nos intimidava, observo que em algum momento algo muito importante se rompeu -e ninguém lhe deu a menor importância.
Hoje, por todo lado, apregoa-se que só o novo é bom e todos disputam a honra de serem mais novos do que os demais.
Ser velho, nestes tempos estranhos, é ser um estorvo, ser inútil, um dinossauro improvável, movimentando-se num universo de frágeis louças. Eu sou um dinossauro e vivo trombando o grande rabo da minha longa história contra as prateleiras deste mundo asséptico. Acho que estou sobrando.
Muito se fala, nos discursos eleitoreiros, das bondades que cada campanha sugere a seu candidato, para agradar a nós, os mais velhos. Cada vez que vejo um almofadinha desses abraçando a senhorinha sofrida e prometendo-lhe mundos e fundos, a ira me sobe à cabeça e por pouco não arremesso a bengala que me ampara de encontro ao televisor.
Porque, no fundo, no fundo mesmo, o que todo mundo quer é tirar a nós, os velhos, do caminho e dos cofres da previdência. Somos aquelas criaturas que parecem servir, apenas, para confrontar cada jovem pimpão com sua própria finitude e com o fato de que a única alternativa disponível à morte, por enquanto, é mesmo sobreviver, como der. E é aqui que a coisa complica.
Provavelmente nunca na história se desprezou tanto a experiência e a memória dos mais velhos como nas últimas décadas. Se você, como eu, é um jornalista “das antigas”, vale menos que um PC 386, daqueles que um dia pareceram uma enorme inovação e hoje não passam de lixo eletrônico descartável e, como tal, ambientalmente incorreto.
Eu me sinto ambientalmente incorreto quando tento mostrar o muito que a memória de duas guerras cobertas, alguns prêmios de imprensa e reportagens memoráveis, inutilmente, me ensinou.
Desempregado desde 2007, sobrevivendo de cada vez mais raros bicos, sinto que cheguei aos meus limites. A autoestima se esfacela e posso entender porque tantos não resistiram e acabaram sucumbindo ao álcool, às drogas ou, tanto pior, à ideia da própria morte.
Tolo e romântico que sempre fui, imaginava que essa vivência toda, mais tarde, me permitiria ajudar os mais novos a melhorarem o mundo imperfeito que é o campo de colheita dos bons jornalistas. Ledo engano, porém.
Tudo o que a história pode ensinar a um jovem, ao que parece, pode ser encontrado nos meandros da nebulosa da internet. Com a vantagem de que lá não haverá nenhum velho chato para dizer que noutros tempos, no meu tempo, algo era assim ou assado por causa disto ou daquilo.
A informação brotará do tablet, cristalina, fria e desinfetada pelo distanciamento tecnológico. O dedicado repórter, com o ímpeto de seus jovens anos, vai poder navegar pelos escaninhos da memória que me resta, sem precisar me aturar e a minha própria história.
Acho que vou ter de procurar emprego de empacotador de caixa de supermercado. E se um dia algum candidato se aproximar de mim, entre um pé de alface e uma caixa de ovos, agradecerei cada migalha que os governos me oferecerem como dádiva. Ao menos assim, talvez, eu tenha alguma utilidade.
Jornalista há 44 anos. Repórter investigativo, cobriu conflitos no Oriente Médio, na África e na Amazônia
|
|