Rio Branco-Ac 28-Jul-2014 
HOME
EDITORIAL
NOTÍCIAS
SOCIEDADE
COLUNAS
CRÔNICAS
ARTIGOS
CONCURSOS
ESPECIAL
EDIÇÕES
EXPEDIENTE
WEBMAIL
CADERNO ESPECIAL
 
 
ESPECIAIS
especial_mulheresnotrafico_nov2010.jpg
orfaosdotransito2.jpg
especial4.jpg
especial2.jpg
especial3.jpg
banner_maepe1.jpg
banner_diatrabalhadorpeq.jpg
capa_filhosdaesperanca_peq2.jpg
acre_cooperativo_p.jpg
 
nomeiodafloresta_capap.jpg

Desenvolvendo a economia social
Senador Tião Viana apoia a 171 associações e cooperativas estimulando produção familiar

Grupo de médicos no Acre revoluciona os conceitos da saúde e dá lições de solidariedade no meio da floresta amazônica
Com Val Sales

Amazônia já vive seu ciclo econômico sustentável
Com Romerito Aquino

VEJA MAIS ESPECIAIS
 

SIMULACROS
MEMÓRIAS INVISÍVEIS Escrito há muitos anos... Imprimir E-mail
Escrito por Márcio Bezerra, sociólogo e escritor   
03-Mar-2012

MEMÓRIAS INVISÍVEIS Escrito há muitos anos...

O importante, afinal de contas, é saber quem você é. Não que isso implique saber muita coisa, geralmente se sabe pouco. Ou tão pouco que saber quem somos é puro detalhe perfeccionista. Mas é um detalhe importante quando se pensa no que foram antes de nós todos estes que identificamos como família. É por isso que estou aqui, para saber quem fui há muitas gerações atrás através destes que identifico como família. Apesar de não identificá-los agora. Mas os quero identificar, isso é o que importa.

Neste momento específico devo ter pouco mais de vinte e cinco anos de idade, detalhe muito importante para quem pretender escrever suas memórias. Li uma vez sobre os memorialistas, senhores ou senhoras setentões que enchem páginas de histórias e estórias sem medida, já que tem alguma coisa de importante para contar no final de tudo. Viveram muitos anos, sofreram mais que eu e que muitos de nós, erraram e muito, magoaram pessoas, exatamente como nós magoamos agora. Por isso escrevem suas memórias. Adoro livros de memórias, são sempre um mundo aberto para o mais intimo de uma pessoa, mesmo sabendo que cinqüenta por cento de tudo é invenção, afinal, é literatura.

As primeiras memórias que li foram as de Pedro Nava, Baú de ossos, Balão cativo, Chão de ferro Beira-mar, Galo-das-trevas e O círio perfeito. Até hoje me recordo dos volumes nas estantes. Ficava horas a folhear o livro, buscando um jeito efetivo de começar a entender aquilo tudo. Em determinada ocasião roubei os livros da biblioteca, coisa do tipo Hobin Hood, dedicando parte da literatura nacional para um pobre adolescente sem livro algum em casa. Foi bom. Servia-me de travesseiro, admito.

Demorei dezessete meses e quinze dias para ler todas as páginas de todos os livros, numa jornada não muito regular de um menino de dezesseis anos. Demorava-me demais, numa metodologia pouco utilizada. Lia até não agüentar mais, pulava as partes que julgava chatas e depois retornava com remorso para lê-las de fato. Afinal, como poderia me gabar depois dizendo que li tudo.

Depois de muito pensar logo percebia que minhas credenciais não admitiam, no momento, a escritura de minhas memórias. Não tenho vida o suficiente para despertar a atenção de um menino de dezesseis anos a ler dezessete meses seguidos. Não poderia falar sobre o que vivi já que não vivi o suficiente. Mas um detalhe curioso quando pensei nesse negócio todo de família, é que poderia muito bem escrever o que não vivi, já que nisso sou credenciado, já que não vivi mesmo nada ainda. Escreveria minhas memórias invisíveis, a memória dos meus antepassados por estas terras, a memória do que foram para descobrir quem sou, mesmo sabendo dos riscos de essa jornada não ser bem sucedida.

Esse projeto é advindo de minhas procuras genealógicas na terra onde nasci. Precisava saber de onde tinha vindo quem sou, ou teoricamente isso tudo. As memórias invisíveis surgem aqui, tais quais as memórias visíveis de alguém de setenta anos, já que para trás de meu nascimento, tenho milhares de anos de parentada e histórias boas para escrever.

Setenta a cem anos no tempo para produzir minhas verdades. Tarefa das mais cruéis para um homem que tem tantas verdades flutuantes. Mas quero fazer isso como quem quer desistir, lógico e inespecificamente determinado. Impossivelmente estabelecido nos meus propósitos sabendo que nos final de tudo, o que importa mesmo é saber quem somos de verdade.

Eu não queria vir aqui, é serio. Mas algo me forçou. Afinal, reviver o passado é das coisas mais terríveis que uma pessoa pode fazer. Ainda mais meu passado escondido e indeterminado, sem caminho certo a seguir. Um lugar no tempo e no espaço (sempre quis dizer isso) que pode até mesmo ser inacessível, assim como muitas coisas são inacessíveis no planeta terra, assim como os pensamentos, as palavras de nossa mente e as palavras reais. Sempre isso me constrangeu deveras, saber que palavras pensadas não correspondem no mesmo nível de palavras escritas. Dizer coisa é infinitamente mais inferior que pensá-las. Em todo caso, já que não avançamos na medicina ainda, as digo. As direi de forma honesta. As memórias são minhas. As memórias invisíveis.

Depois de todos os dezessete meses e quinze dias retornei à biblioteca com os livros. O funcionário do atendimento advertiu que teria que ficar mil e cinqüenta dias sem pensar em pegar algum livro emprestado. O resumo de tudo é que só depois que completasse a maioridade dos VINTE E UM ANOS poderia retornar ao recinto dos livros. Isso eu vivi, tá na conta do que um dia contarei. Dois meses depois disso, por motivo de reforma, a biblioteca do lugar que não digo o nome nem morto fechou para reformas. Soube que queimaram todos os livros.

Dia triste, e pensar que ali li Drummond, Nelson Rodrigues e as obras completas de Camões, numa edição portuguesa de mil oitocentos e noventa, em papel amarelo a se desfazer. Até hoje me lamento não ter roubado todos os livros. Seria fácil, empreenderia um projeto de surrupiar um a um, armazenando-os em meu quarto, organizando minha biblioteca particular. Mas não fiz isso. Uma das perdas mais difíceis de minha vida. A perda dos livros da adolescência.

De certa forma, me tornei o que sou hoje naquele dia de outubro de 2000, às três da tarde, diante das cinzas de minhas memórias literárias. Os livros queimados foram o estopim para uma busca que desde então não cessa. Este é o momento certo para abrir o BAÚ DE CONFORMAÇÕES que se ergue como misterioso edifício às minhas costas. Uma ÁRVORE GENEALÓGICA SEM GALHOS é vista e eu preciso descobri-la para me descobrir.

Márcio Bezerra, sociólogo e escritor. Premiado no Premio Garibaldi Brasil de Literatura, publicado pela Câmara Brasileira de Jovens Escritores e pelo site de Literatura Brasileira Contemporânea Cronópios.

 

 
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação sem autorização.
© 1999-2008 Página 20 - Todos os direitos reservados.