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Drama de familiares que tiveram a vida marcada e transformada para sempre por uma imprudência
Irritação, ansiedade, medo, estresse, dor e desespero. Esses são alguns dos sentimentos que estão diretamente ligados ao trânsito em todo o país. O excesso de veículos combinado com o consumo de álcool e o desrespeito à sinalização multiplicam a cada ano o número de vítimas fatais nas ruas e rodovias brasileiras.
Diuturnamente, o trânsito expressa seu lado dramático. A perda de um filho é tão antinatural que não há um termo que possa definir a situação para a família enlutada. Mas o paradoxo no país é que, por mais antinatural que seja, o trânsito está matando como nunca, principalmente jovens com idade de 18 a 35 anos.
A imprudência e a embriaguez mataram 45 pessoas nos primeiros cinco meses de 2009 em Rio Branco. Média mensal de nove óbitos nas ruas da capital. Famílias que se tornaram órfãs do trânsito não hesitam em demonstrar indignação ao ver mais pais, mães, irmãos e filhos terem a vida interrompida por casualidades que poderiam ter sido evitadas.
Dados estatísticos do Departamento Estadual de Trânsito (Detran) apontam que só em outubro deste ano mais de 100 pessoas foram vítimas de acidentes no Estado. Os pedestres, ciclistas e motociclistas são as maiores vítimas do descaso e da imprudência nas ruas - estes últimos lideram mais de 54% dos casos de mortes apontados pelas pesquisas.
Especialistas da área afirmam que o sofrimento de uma perda súbita, já consumada por milhares de acreanos, poderia ser evitado com incentivo à educação, fiscalização e melhorias na sinalização no trânsito. A redução do número de acidentes com vítimas fatais é de 9% se comparado ao ano passado, quando 138 pessoas tiveram suas vidas interrompidas em acidente de trânsito, tendo sido o ano considerado o mais trágico dentro de uma década no Estado.
Estrada sem volta
Com oito meses de vida, a pequena Laura Beatriz é uma das muitas crianças que se tornaram órfãs do trânsito. Na noite de 18 de agosto deste ano, o pai dela, o jovem Valcimar de Jesus Bezerra, 23, tornou-se mais uma vítima fatal de um acidente automobilístico na Estrada da Floresta, onde o sonho de ver a filha crescer, ir à escola e fazer descobertas pelo mundo foi suprimido de forma trágica e em questão de segundos.
Na companhia da mulher Adriele Caroline, 21, ele seguia na direção do Centro em uma moto modelo Honda Twister, com destino a um supermercado. O jovem casal foi atingido por um automóvel modelo Courier, que em uma manobra precipitada invadiu a contramão para entrar em uma garagem do lado esquerdo da pista.
“Ele tentou frear e a última coisa que lembro é ele avisando: ‘Amor, vai bater!’. Eu me apertei junto a ele e acordei no hospital depois de um sonho muito real, com ele me dizendo que estava bem e que eu quem deveria me cuidar. Depois do enterro, ainda tive que voltar para o hospital para retirar o baço, conviver com a dor, a saudade e descobrir forças para seguir em frente”, relata.
De acordo com ela, a agonia continua devido à busca do seguro tanto da empresa em que ele trabalhava quanto do que fora aprovado para a família de vítimas de acidentes. “A única ajuda que estou recebendo é dos próprios parentes dele, porque o responsável pelo acidente, que estava embriagado e fugiu do local, mesmo tendo se apresentado depois à polícia, nada fez para ajudar.
A volta para casa
Para Adriele Caroline, sair do hospital e voltar para casa onde vivia com Valcimar foi como um pesadelo. Ela lembra que não tinha forças sequer para cuidar da filha. Mas foi na pequena Laura que teve que encontrar os motivos para levantar e seguir em frente, passando por cima de uma dor que para ela nunca terá cura: a dor de ver a filha crescer sem o carinho do pai.
“A Laura era tudo na vida dele. Ele chegou a desejar mais essa criança do que eu. Meu marido tinha o sonho de ser pai, e, finalmente, quando conseguiu, alguém resolveu acabar muito rápido com essa felicidade. Nossa filha era nossa primeira realização, depois viriam a casa e tantas outras coisas que havíamos planejado para uma vida em família”, desabafa em lágrimas.
Com a filha muito pequena, Caroline depende da ajuda de parentes para sobreviver e lamenta, desde já, a falta que Laura sente do pai. Para ela, o momento mais difícil será no futuro, quando terá que responder às indagações da pequena órfã sobre a morte do pai.
“Hoje ela não entende e sorri o tempo todo. Às vezes chama por ele - ‘papá, papa’ - e isso só me entristece. Fico perguntando para minha mãe como vai ser quando eu tiver que contar a verdade a minha filha, quando ela começar a perguntar o que houve com o pai e de como será na escola, no Dia dos Pais... Eu cresci sem pai e não queria isso para minha filha, porque sei o quanto é importante e faz falta”, lamenta.
A jovem ainda espera que o responsável pelo acidente se sensibilize pela situação dela e da filha, pois, por um ato imprudente, tirou-lhes o pai e o marido exemplar, o mesmo que por toda a vida não iria deixar nada faltar a elas.
“Meu marido era uma pessoa que sempre correu atrás dos seus objetivos e não gostava de dever a ninguém. Ele sempre honrou seus compromissos e não tinha medo do trabalho. Eu gostaria de dizer ao motorista daquele carro que nunca mais beba antes de dirigir, pois ele já destruiu uma família. Acredito que ele sinta culpa pelo que aconteceu, pois se eu estivesse em seu lugar, não conseguiria dormir. Acidentes acontecem e ele não fez de propósito, mas acho que deveria nos auxiliar de alguma forma, pois meu marido nos daria tudo aquilo de que precisássemos”, argumenta.
Perderam os pais e assumiram seus sonhos
O dia 3 de agosto parecia ser mais uma data comum na vida da família Aquino Diogo. Após o fim do expediente, Lícia Maria de Aquino e Ocivaldo Diogo de Souza retornavam para casa certos do descanso por terem vencido mais uma rotina de trabalho.
Em clima de descontração, o casal se despedira dos filhos Litivaldo Aquino Diogo e Clisma Aquino Diogo acreditando em um novo encontro na manhã seguinte, já que trabalhavam juntos no restaurante montado nas dependências de uma concessionária de carro.
Naquela mesma tarde o inesperado aconteceu. Nas proximidades do bairro Belo Jardim, o casal, que estava em uma moto Yamaha Factor, foi colhido por um automóvel que vinha em alta velocidade e conduzido por um menor, que segundo testemunhas estava embriago. A mulher foi lançada a 15 metros do local do impacto e morreu na hora. O marido ainda foi atendido pela equipe de socorro, mas não resistiu aos ferimentos e morreu a caminho do hospital.
“Antes de ir para casa fui dar uma volta de moto e presenciei um acidente que me deixou meio pensativo. Ao encontrar um grupo de amigos, eles também lamentavam outro acidente envolvendo um casal em uma motocicleta próximo à Corrente. Fiquei triste imaginando o sofrimento das famílias, sem saber que se tratava dos meus pais”, relata pensativo o filho mais velho do casal, Litivaldo Diogo.
Para ele, o sofrimento é grande, mas não vai neutralizar a necessidade de fazer com que a família busque justiça. Ele luta para tocar o negócio da família, mesmo na ausência dos pais, e não mede esforços para fazer com que o responsável pelo acidente seja penalizado por seus atos.
“Todos os dias sofro com a lembrança dos meus pais dentro desse restaurante. Parece que estou vivendo um sonho. Não consigo acreditar que essa tragédia foi real e tenho sempre a impressão de que vou vê-los subir as escadas e vir trabalhar conosco normalmente. Chego a escutar suas vozes de comando. Tiraram-nos nossa base. Ficamos sem referencial e não posso simplesmente me conformar. Vou continuar lutando para o culpado ser responsabilizado pelo que fez”, afirma com lágrimas nos olhos.
Juscelino Oliveira R. de Queiroz, 21, foi quem se responsabilizou pelo acidente provocado pelo jovem de 16 anos. Ele vinha de carona no mesmo carro com mais três garotas em direção ao centro da cidade. Testemunhas relataram que tanto o casal da moto como o condutor do carro dirigiam em alta velocidade, o que foi comprovado pela perícia.
“Todo mundo diz que filho é igual a passarinho, que só se desprende do pai e da mãe quando constitui família. A perda prematura dos pais faz com que nos deparemos com o mundo e percebamos que estamos sozinhos nele. Depois disso, só restam poucos amigos e muitos problemas para resolver”, aponta, emocionado.
Ele relata ainda que não modificou nada do que os pais fizeram no restaurante, pois, se consegue manter o “ganha-pão” da família, deve-se ao respeito e ao prestígio que o casal conquistou ao longo dos sete anos de trabalho dedicado à empresa.
“Essa é uma forma de manter a lembrança da minha mãe e do meu pai sempre viva não só para mim, mas para todo mundo que trabalha conosco e que conviveu com eles. Foi dessa forma que eles conseguiram chegar aonde chegaram, e poderiam ir mais além se o sonho não tivesse sido interrompido por pessoas que não tinham condições de conduzir um carro”, enfatiza.
Também nesse caso, nem o motorista responsável pelo acidente ou seus advogados mantiveram contato com a família das vítimas para prestar algum tipo de solidariedade ou auxilio para possíveis dependentes do casal. Os filhos receberam informação de que Juscelino teria passado um mês em cárcere privado e que responderá ao processo em liberdade. Clisma e Litivaldo Aquino pretendem ainda entrar com processo indenizatório contra os responsáveis pela tragédia.
Somente justiça pode trazer consolo
A noite do dia 8 de fevereiro deste ano marcou para sempre a vida da família Vasconcelos. Por volta das 20 horas, o mecânico Carlos Araújo Vasconcelos voltava para casa depois de um dia exaustivo de trabalho. O caminho escolhido fora a Avenida Nações Unidas e o meio de transporte, uma motocicleta modelo Titan.
Nas proximidades do Detran, Carlos foi colhido por um automóvel modelo Clio, que saíra da travessa Sebastião Dantas e o arrastou por cerca de cinco metros. A vitima foi socorrida pela equipe do Samu, mas não resistiu ao acidente e morreu no hospital.
A motorista do Clio era a defensora pública Vânia Linda de Freitas, que, segundo os familiares do mecânico, permaneceu no local até a chegada dos paramédicos e foi orientada a ir para casa após o registro do boletim de ocorrência.
“Esse foi o único contato que tivemos com ela durante todo o processo do acidente. Ela tirou a vida de um pai de família. Tirou o direito das minhas filhas de crescerem ao lado do pai e sequer demonstrou alguma solidariedade com a nossa situação. Perdi meu companheiro e meu amigo e sei que nada do que for feito em termos financeiros vai nos devolver a presença física dele, mas iria amenizar nosso sofrimento”, relata Walcerina Vasconcelos, mulher de Carlos.
Ela continua o relato: “Tudo agora tem um peso maior. Minhas filhas não conseguiram ainda assimilar a morte do pai e precisam de acompanhamento psicológico. Temo pela saúde das duas. A mais nova se tornou uma menina amedrontada e emagreceu muito. Meu marido era meu braço direito. Estávamos dando uma guinada na nossa vida, reformando a casa, e havíamos comprado um carro novo. Agora tudo perdeu o sentido e ficou apenas o amargo das dívidas”, lamenta.
Para a sogra de Walcerina, Eliuda Araújo Vasconcelos, o que faz aumentar o sofrimento é o descaso com que a morte do filho foi tratada. Ela acredita que a responsabilização da condutora do veículo poderia ajudar a acalentar seu coração órfão de um filho.
“A impunidade acaba servindo de incentivo. Não quero terminar com a vida dessa mulher ou interromper qualquer sonho que ela tenha, mas ela destruiu a minha família e não se mostra comovida com nossa situação. Só quero justiça para tentar acalmar meu coração, pois sei que nada do que for feito, por mais justo que seja, trará meu Carlinhos de volta.”
Com a voz embargada, Walcerina relata que desde o falecimento do marido é ela quem sustenta a casa e paga as dívidas com o salário que recebe de professora. A viúva garante que seu único desejo e sensibilizar a Justiça e chamar a atenção da população para cuidados no trânsito, assim como ao amparo que deve ser dado às pessoas que estão na mesma situação que a dela.
“Uma fatalidade como essa desestrutura qualquer pessoa. Desde o dia do acidente eu tomo remédio controlado para conseguir dormir. Minha filha regrediu na escola e tive que interromper o futuro acadêmico da mais velha por falta de condições financeiras. É muito difícil lidar com tudo isso ao mesmo tempo. Principalmente sabendo que a causadora não foi capaz de nenhum ato humano para nos amparar”, desabafa.
Eliuda alerta para o rigor que deveria ser aplicado na emissão de carteiras de motorista. Para ela, os altos índices de acidentes e o despreparo dos condutores são culpa da instituição, que não fiscaliza os que se tornam aptos a dirigir pelas ruas da capital.
“As pessoas não têm respeito pelas faixas, semáforos e, principalmente, pela vida humana. É uma pressa que não se entende. Preferem correr o risco de nunca mais poder passar em um cruzamento a ter que esperar um pedestre ou outro veículo passar na sua frente. Quanto mais motoristas são habilitados, mais o trânsito fica perigoso. O meio de transporte deixou de ser sinônimo de conforto para se tornar tão mortal quanto uma arma de fogo”, argumenta, emocionada.
A mãe e a esposa da vítima lamentam o descaso com que a responsável pelo acidente trata a situação. Segunda elas, a defensora nunca as procurou para saber se a família estava precisando de algo. “Se as pessoas forem mais cuidadosas, situações como a minha não vão mais acontecer. Se houvesse mais atenção, muitas famílias não seriam mutiladas de forma tão cruel”, conclui.
A família de Carlos Vasconcelos organizou um protesto silencioso no dia do julgamento sobre o caso, que aconteceu na segunda-feira, dia 30 de novembro. Segundo a mãe de Carlinhos, a intenção era de ,manifestar-se em nome de todas as famílias enlutadas no Estado.
Opinião
Lyslane Mendes
Quantas centenas de pessoas terão que morrer todo ano para que sejam adotadas medidas drásticas e aplicáveis para responsabilizar os causadores de barbaridades no transito? Todos os fins de semana são diversos patrimônios públicos e privados danificados por ação de irresponsáveis que foram habilitados a conduzir um automóvel ou uma motocicleta.
Considero que os causadores de acidentes fatais não os cometem de maneira intencional, com o propósito de tirar a vida de alguém, mas com toda certeza, se houvesse uma intensa fiscalização e punições penais e financeiras mais drásticas, todos os condutores refletiriam mais antes de colocar o pé no acelerador, antes de sentar em frente ao volante após ingerir uma ou três latinhas de cerveja.
Falta respeito pela vida humana. No trânsito prevalece a lei do mais forte, do que se julga certo, do que não pensa em desacelerar para não causar um acidente, não pensa em desviar para não prejudicar alguém, não pensa em esperar para alguém atravessar a rua, sempre longe da ideia de que um erro não justifica o outro.
De fato, todos temos responsabilidades no trânsito e pelo caos em que ele se transformou, onde pedestres não atravessam na faixa, motoristas invadem sinal, motociclistas ultrapassam pelo lado errado, não respeitam placas nem regras, pois todos estão preocupados demais com o próprio tempo, não se importam de interromper para sempre a viagem de outra pessoa.
Quando dirige de forma agressiva ou alcoolizado, o condutor deve ter a consciência de que optou por colocar a própria vida e de outras pessoas em risco. E deve ser penalizado. Ele não tinha a intenção de matar, mas escolheu por não respeitar a vida. Acredito que este deve ser o sentimento responsável por solucionar a maioria dos problemas do mundo: Respeito ao próximo.
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