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Este ano vai ser igual ao que passou? Imprimir E-mail
Escrito por José Augusto Fontes   
04-Mar-2011

Eu vejo as pernas de louça da moça que passa e penso que este ano vai ser igual ao que passou. Eu não brinquei, mas alguma folia me levou, meus olhos dançaram, minhas ideias desfilaram. Penso que muitas emoções, como saudades, alegrias e desilusões vão ser liberadas, sem alvará e sem restrições, no meio da embriaguez coletiva, atrás de alguma fantasia disfarçada, pelos lados da contenção dissimulada, pela frente de qualquer cordão desenrolado. Algumas vontades que estavam na fila, adiadas por qualquer motivo, serão levadas para as avenidas, desfilarão com a máscara possível e se perderão no bloco do você pra lá, eu pra cá, quando o cenário tiver que ser desfeito, assim que o passeio desses sonhos todos terminar.

Eu nem estava me guardando, mas quando o carnaval chegar também vou desfilar pelas ruas, meu enredo é o mesmo do ano que passou, mas vejo outras alegorias pelas redondezas, em alguma ala mais ali adiante, em algum batuque distante, Já pressinto sorrisos e abraços, devolvo-os rápido, e sigo com a multidão, até quando a dispersão for anunciada. Espero, enquanto isso, desenvolver bem minhas ilusões, ritmar meu coração, quem sabe, alguma moça me dê a mão e eu consiga enveredar nos adereços dela, quem sabe, eu a faça evoluir no meu compasso, quem sabe, este ano fique tudo combinado, até depois da quarta-feira. Se essa fantasia mentir, até chegar a hora, abraço outra colombina ou posso apenas olhar e deixar passar. Dou a volta no calçadão e abraço a multidão, quero botar meu bloco na rua.

Há muitas ideias. É quase hora de pensar num samba que vai passar e arrepiar, num axé que vai sacudir e abalar. Começo a esperar e crio imagens para quando o carnaval chegar marchando, para quando eu encontrar com ele no meio da pista, para quando o grito se soltar. Acho que vou brincar. Se a imaginação deixar, posso até botar meus olhos para bailar num frevo. Me leva que eu vou, sonho meu, qualquer ilusão me diverte, embarco na fantasia, nada me aborrece e o tempo é de confetes. Ao invés do samba, sou eu quem pede passagem, agora que já não sei se este ano será igual àqueles que passaram, que de tantos, me fizeram atravessar e perder o breque; me fizeram desafinar e me deixaram só com o contra-surdo, sem repique para alegrar, sem tarol para compassar, sem bumbo para marcar, sem cuíca para chorar.

O carnaval já vai chegar e logo vou ficar sabendo se tudo vai ser diferente apenas na minha conversa fiada. Espero, quase parado, balançando apenas o pensamento; espero, vendo e sabendo, sentindo e escutando, até posso falar. É quase certo que o movimento vai me levar. Se depois a euforia for embora, não importa, ano que vem tem mais. Se a comissão de frente não se mostrar alegre, alegro-me eu, sigo as passistas, lanço a serpentina para frente, mostro que sei sambar. Quem diria, a ilusão é mesmo à toa. O carnaval é capaz disso e eu espero. Deixarei que ele venha, aguardarei por ele, sem inventar outras máscaras. As que eu já tenho me bastam. Mas quando vejo as pernas de louça da moça que passa, é impossível não pensar num bom enredo, é impossível não fantasiar. Não me levem a mal, é carnaval.

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