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Vontade de falar Imprimir E-mail
Escrito por José Augusto Fontes   
01-Jul-2012

Passeando num shopping, resolvi fazer uma fé nas loterias, para ganhar na mania e ser fácil na mega, sem perder a esportiva. Ali subiu um cheiro bom e forte de café. Não havia mais do que um pouco, pousado num copo descartável no balcão. O rumo do cheiro trilhava para um hall próximo, num caminho jeitoso nas artimanhas de todo gosto adocicado. Jogo e café, cheiro e gesto, isso me arrasta para algum lugar no meio de uma praça qualquer da grande loja da existência. Sigo com a fé alojada num bolso seguro, quase abençoado. Só que isso é outro assunto, enquanto eu procuro o tema, para chegar ao ponto. E o ponto é continuando.

 O cheiro se transformou em gosto, formou um conjunto harmÿnico que entrou pelas narinas e desceu pela goela, inundando os sentidos, quase a não perceber a moça passando ao lado, com as pernas de louça cantadas pelo Chico. Eu também vejo e não posso falar (a música fala em pegar, mas eu sou tímido), por isso gravo no disco rígido oculto no cérebro, prometendo escrever no escondido da minha rede, com o notebook nas pernas, sobre um travesseiro quente que sabe guardar segredos.

Não fico tonto, apenas olho, como quem não olha, concentrando meus calados elogios no café, como quem nada mais pode querer. Mas quero. Tanto que saio, pois só é possível fumar lá fora, num outro canto da vida. A fumaça levou os devaneios. É preciso lavar o pigarro com um bom chope. Eu volto para a praça das ilusões em movimento. Entro bafejado pelo ar condicionado do mercantilismo; embalado pela vontade de comer uns quitutes árabes, para dar mais gosto ao gelado da bebida (e não para tirar o gosto). Vou levado pelo cheiro de alguma lavanda que exala da loja lateral. A atendente me alerta sobre a fixação, borrifando meu braço com um jato cheiroso, floral e doce. Nesse novo contexto olfativo, enterneço meu coração e resolvo comprar presentes.

A lua e a estrela não estão aqui, mas esses bons perfumes me levam para longe, por enquanto. Sento-me e peço um chope gelado, já cuidando das cercanias, de onde não alcanço as conversas, embora arremate bem os olhares, as impressões e as suposições. Finjo-me ausente. Estou certo de que para amanhã o futebol será o melhor programa. Lá também vai haver muita gente para olhar e investigar. Vou abicorar os lances, fazer de contas que prevejo as jogadas decisivas e vou antever os gols, mesmo os que não forem. Nisso há outros movimentos que me interessam, como fosse para não ficar simplesmente parado num encanto. A vista vai ficar distraída, enquanto penso na vida e defendo posições imaginárias, pois tudo isso me disfarça. Será que é para tanto?

É tudo um grande jogo e eu fico sempre na multidão, acompanhando o meio de campo e seguindo com a torcida dos sonhos, em sua imprevisível exatidão. Vou margeando e tateando. Será que já contei isso? Bom, nem sei a quantas anda. Acabou o intervalo. Saio para a rua e percebo o mesmo mundo. Se não bebo a tempestade, troco passes com um imaginário que cumpre tabela. Nada me aborrece, nem ninguém quer saber disso. Um joguinho, um café, um cheiro de saudade, tudo se perde em versos que nem querem ser tristes.

Uma chuva lava o mundo e o grande circo renasce na praça cheia de caminhos. O amor estava aqui e deu o pontapé inicial. Um lamento de amor. Percorro a vida enquanto saio pela linha de fundo. A lavanda das águas do temporal me navega para uma casa que me acolhe. Sou eu mesmo, aqui dentro. Num jogo de possibilidades, ganho de presente um passe para a eternidade. Entro num shopping e tudo me leva para uma galeria, onde vejo a moça passar em exposição. Peço um café, penso na louça, mas não posso falar. Por isso, prometo escrever, assim que esse jogo acabar; assim que eu puder falar.

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