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Há dez meses, quando adquiri o livro “Ladrão no fim do mundo: como um inglês roubou 70 mil sementes de seringueira e acabou com o monopólio do Brasil sobre a borracha”, numa das lojas da rede Saraiva, li a orelha e fiquei muito cativado pela obra do jornalista Joe Jacson.
No entanto, naquele momento eu estava preso a uma trajetória que me conectava à idée fixe absoluta de ler e escrever apenas sobre política de inovação tecnológica. Fiquei na maior da vontade, apenas.
Há quinze dias, já noutra situação, fiz o mesmo. “Orelha”, depois o “Prólogo (o sonho de Henry)”. Daí, fui embora. Uma palavra após outra. É uma narrativa, uma armadilha, bem aparelhada; o leitor, literalmente, é arrastado pelo estratagema do autor.
O pano de fundo do livro é a história do expedicionário Henry Wickham, que conseguiu encontrar as sementes da seringueira que produzia a borracha de melhor qualidade (Pará fine), a hevea brasiliensis – dentre um sem número de variedades existentes na Amazônia –, e levá-las para serem analisadas pelos cientistas do império britânico, para, em seguida, formarem-se nos seringais de cultivo asiáticos.
Na leitura, foi necessário fazer uma escolha; com quais instrumentos eu deveria viajar pelas 448 páginas do livro. Optei pela estrutura analítica da área das relações econômicas internacionais, que é um campo do conhecimento que tive a sorte e o privilégio de passar um ano convivendo com intensas e extensas discussões, ao lado de professores e pesquisadores os quais tenha a maior admiração.
Claro, que também tenho paciência para ler ou ouvir intermináveis descrições sobre o passado da borracha, embora com reservas. Como as partes do livro, que fazem uma descrição minuciosa do processo produtivo da borracha natural, que desde os anos 1850 já era do jeito vim a conhecer há poucas décadas, com todos os detalhes contidos no livro e, também, imagináveis de um lugar “saturad[o] tanto de silêncio quanto de som”. Um local onde as pragas bíblicas pululam: febre amarela e dengue, disenteria amebiana e bacilar, malária, febre tifóide, hepatite e tuberculose.
Nesse sentido, veja uma passagem sobre o “inglês pedante e orgulhoso”, em sua segunda expedição, no alto rio Orinoco, no entorno da Venezuela: “O dia típico de Henry como seringueiro começava às 5h30 ou seis da manhã. Ele tomava um café da manhã leve: café e uma porção de chibéh [...] e caminhava floresta adentro com a arma, a bolsa com munições, o frasco para pólvora e o facão a tiracolo. Seguia o caminho por duas ou três horas, pelas curvas que ele fazia por entre as arvores, sempre atento às cobras perigosas ou animais de caça que pudessem aparecer inesperadamente. [Segue descrição da arte de extração da borracha].”
E mais lá na frente: “[...] a febre recorrente que Henry temia por tanto tempo atacou novamente, sem aviso, abatendo-o com uma onda de náusea enquanto ele estava fora de casa sangrando arvores. Ele voltou se arrastando para sua canoa: ‘Cada vez que o ataque de náusea voltava, eu ficava muito enfraquecido, e tinha de deitar no chão úmido e esperar até passar o paroxismo’. Quando conseguiu se levantar e ficar em pé, tropeçou em seu facão e teve sorte de não se cortar, pois teria sido o fim. Chegou até o a canoa e tentou remar até seu rancho, ‘mas o sol estava forte demais para mim’, e subiu engatinhando a terra fresca da margem. Sua pele ardia por dentro. Ele continuou engatinhando, ‘o restante de minhas forças se esgotando rapidamente’. Chegou ao acampamento e subiu na cama elevada. ‘Lembro do que aconteceu durante os quatro dias em que durou a náusea e o vomito constantes’, disse ele”.
Para além destas descrições, ao longo dos anos em que Henry Wickham passou nas florestas da Nicarágua e da Venezuela, chegando, posteriormente, em Manaus, o mistério da Pára Fine cada vez mais se tornou a obsessão do império britânico, por intermédio do poderoso Jardim Botânico Real, que, por incrível que pareça, recebeu todas as informações sobre a misteriosa Hevea Brasiliensis, de bandeja, de relatórios dos próprios brasileiros. Alguma semelhança com o que acontece atualmente?
A borracha estava se tornando uma das mercadorias mais importantes do mundo. Sua utilidade era quase infinita, após Charles Goodyaer ter descoberto acidentalmente o processo de vulcanização, em 1839. Não se justificava que o monopólio de sua produção permanecesse na Amazônia. O roubo das sementes significou basicamente isso. O monopólio da produção passou para o império, de forma rápida e abrupta.
Na era da borracha amazônica, de 1850 a 1913, não existia outra fonte dessa matéria-prima de alta qualidade. Mais precisamente, em 1990, o vale amazônico produzia 98% da borracha do mundo. Em 1928, somente 2,3%.
Um golpe dificílimo de comparar. Talvez coisa parecida só viesse acontecer com o advento da borracha sintética. Nem a investida do governo dos Estados Unidos, por meio de Henry Ford, no final da década de 1920, conseguiu fazer algo igual. Fordlândia se transformou simplesmente num desastre. O próprio Joe Jackson a aborda rapidamente, de forma objetiva e direta, assim como Greg Grandin a discute de modo mais profundo, no recente livro “Fordlândia: ascensão e queda da cidade esquecida de Henry Ford na Selva”.
Warren Dean também entrou nessa discussão, em “A luta pela borracha no Brasil”, defendendo a tese mais ampla, de que uma das razoes da luta pela borracha estaria localizada na esfera ecológica. Mas, isso importa pouco face ao golpe desferido pelo “O ladrão no fim do mundo”. Seringueiros, seringalistas, mercadores amazonenses e paraenses, indústria automobilística foram reposicionados noutra dimensão, na medida em que o centro nervoso da produção de borracha saiu do vale amazônico para o leste asiático e nunca mais voltou para o espaço brasileiro.
Tudo isso, graças a um plano diabólico de um simples expedicionário enviado do poder científico mundial, localizado no Jardim Botânico Real. Isso se chama exercício do poder mundial. Expansão, expansão. Na realidade, o que representava também a expedição de Charles Darwin?
Professor de Economia Internacional da UFAC. Doutor em Ciências Econômicas pelo Instituto de Economia da UFRJ e Mestre em Desenvolvimento Agrícola pelo CPDA/UFRRJ. E-mail:
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Blog: jporfiro.blog.uol.com.br.
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