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Breve história da música no (vale do) Acre - IV * Imprimir E-mail
Escrito por Marcos Vinícius Neves - mvneves27@gmail.com   
29-Jul-2012

Desde a influência das músicas sacras do Daime, passando pelas serenatas nas noites de lua e pela inesperada “Batalha da Borracha”, até a chegada do rádio ao Acre, a música acreana foi se transformando e adquirindo novas características.

Dentro da mesma linha de atuação, mas com resultados completamente distintos, está a formação, a partir de meados da década de 20, dos primeiros centros de Daime que sob o comando do Mestre Irineu, e mais tarde de outros como Daniel Matos, deram início a uma nova faceta musical típica do Acre: a musica sacra do Daime. A partir do contato de Irineu Serra com os trabalhos espirituais desenvolvidos pelos irmãos Antônio e André Costa em Brasiléia, os adeptos do Daime criaram movimentos musicais-religiosos que mesclaram elementos indígenas, nordestinos e católicos e desenvolveram uma forma característica de prece cantada que tornou-se conhecida como hinário.

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Essa vertente musical, apesar de passar quase despercebida nos primeiros anos, deu origem a uma grande variação nos rituais das diversas igrejas de Daime que existem atualmente. Foram assim desenvolvidos bailados diversos, repertórios musicais variados - que incluem ritmos como valsas, marchas e nordestinos - e instrumentos tradicionais (violão, violino, teclados, etc.) ao lado daqueles de origem claramente indígena como os maracás.

Estavam delineadas, então, as bases sobre as quais se assentaria a evolução musical do Acre nos anos subsequentes.

No início dos anos 40 o Acre possuía uma produção musical bastante eclética. A Banda da Polícia Militar, como sempre havia feito, ainda começava suas apresentações pelo Segundo Distrito de Rio Branco, bairro mais antigo que concentrava o comércio e as residências das camadas mais populares da sociedade. Só depois de percorrer as ruas 17 de Novembro, 24 de Janeiro e 6 de Agosto, a banda atravessava o rio Acre e completava suas apresentações no Primeiro Distrito, sede do poder político e local de moradia das classes dominantes. Durante essas retretas, realizadas em frente ao Palácio do Governo, na Praça Eurico Dutra, tocava-se uma seleta dos melhores estilos consagrados às bandas. Predominavam as marchas, os dobrados, os foxes e as valsas, mas tocavam-se também boleros e sambas. Muitas dessas músicas já estavam sendo compostas pelos próprios integrantes da Banda que estabeleceram o costume de homenagear com suas novas composições os personagens ilustres da sociedade, os políticos e suas esposas ou os comandantes da corporação à qual pertencia a Banda. Getúlio Vargas, Guiomard Santos, Ten. Cel. Fontenele, Dacy Fontenele, Cap. Francisco Sobreira, são os nomes de algumas das músicas compostas por integrantes da Banda dessa época. Mas nem só de oficialismos viviam os músicos e boa parte dos sambas e valsas compostos foram dedicados às belas mulheres de então (como nas musicas “Nazira”, “Cleide Elizabeth”, “Estelita”, “Ivone”, etc.).

Os conjuntos de pau e corda, por sua vez, também continuavam fazendo suas serenatas por toda a cidade. Houve mesmo uma época em que o sucesso desse gênero de musica era tanto que “nas noites de lua ninguém dormia” (Bararu). Nestas ocasiões, as serenatas e alvoradas causavam uma certa confluência dos músicos de pau e corda e dos instrumentistas da Banda, embora houvessem sempre aqueles músicos que preferiam mesmo tocar sozinhos. Os conjuntos de pau e corda eram formados por instrumentos variados - juntando dois violões, ou violões e zabumbas, ou sanfonas, ou instrumentos de sopro - e tocavam não só nas serenatas mas em todas as oportunidades que surgiam, tais como: em bailes populares, clubes e bares.

O panorama musical só começou realmente a modificar-se a partir de uma série de eventos que, rápida e inesperadamente, alteraram completamente a vida acreana: a eclosão da Segunda Guerra Mundial, a nova valorização da borracha e a avassaladora onda de imigração nordestina da “Batalha da Borracha”. Fatores esses, potencializados ainda mais por outros aspectos inerentes à nova situação, e que causaram uma radical transformação na cultura e na sociedade acreana e por consequência em sua música.

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Sem dúvida, uma das mais importantes transformações (no que diz respeito à música) desse período foi a superação do isolamento crônico em que vivia o Acre. Desde meados da década de 30 que os aviões do Sindicat Kondor, da Panair e depois do CAN vinham regularmente ao Acre, facilitando as idas e vindas das pessoas e, portanto, das idéias. Porém, neste sentido, os efeitos da aviação não podem ser comparados ao impacto causado pela chegada dos primeiros rádioreceptores em diversas cidades do Acre (1940 em Sena Madureira e em 1942 em Rio Branco, por exemplo). O rádio podia trazer, enfim, as novidades do mundo para o Acre, como a Grande Guerra, a política populista de Getúlio Vargas e a música que se praticava no Brasil e em outras partes do mundo.

Para termos uma imagem mais nítida dessa influência imediata basta lembrar que o primeiro radioreceptor de Rio Branco foi instalado no Pavilhão, tradicional reduto dos poetas, músicos e intelectuais da cidade, demonstrando que a presença do rádio, desde seu inicio, atuou coletivamente sobre a sociedade.

Somado a isso, temos ainda a chegada de massivas levas de imigrantes nordestinos durante o que convencionou-se chamar de “Batalha da Borracha”. Milhares de homens e mulheres oriundos de todos os estados do norte e nordeste que chegavam diariamente para trabalhar no Acre em nome do “esforço de guerra”. Enquanto uma parte desses imigrantes era conduzida para o trabalho nos seringais, outro tanto ficava pelas cidades trabalhando na agricultura ou em serviços urbanos gerais. A década de 40 registraria assim uma renovação das influencias nordestinas sobre a cultura acreana. Influencias essas que já estavam bastante enfraquecidas pelas décadas de misturas culturais ocorridas desde que os primeiros imigrantes nordestinos por aqui aportaram no século XIX. Ainda mais que foi exatamente nessa época que Luiz Gonzaga estourou nas rádios de todo o país como o “Rei do Baião”. Assim o gosto pelos gêneros musicais marcadamente nordestinos conheceu acentuado crescimento com a proliferação dos forrós tanto nos seringais, quanto nas cidades.

Sintetizando e completando todas as modificações já citadas aparece como fator extremamente importante a criação da Rádio Difusora Acreana em 1944. Rapidamente o Acre deixava de ser simples consumidor das rádios nacionais e estrangeiras para tornar-se produtor regional de uma programação jornalística, musical, artística e de serviços. Mais importante ainda, a “ZYD-9 - A Voz das Selvas” conseguiu, finalmente, operar uma relativa integração do Acre, ao ter suas ondas captadas também nos seringais e cidades do interior. Por isso, além do acesso rápido que o rádio possibilitava ao que se estava produzindo em termos musicais pelo país, a presença de uma emissora na região significava que os músicos acreanos passaram a ter um novo campo de trabalho e de veiculação de suas composições, certamente incentivando sua modernização e dinamização.

*Texto publicado originalmente na Revista Registro Musical, FGB, 1996

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