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Os 16 anos de experiência na Polícia Federal não foram suficientes para que o deputado estadual Jamyl Asfury evitasse ser vítima do tráfico de influência que impera nos partidos de oposição do Acre. Eleito pelo Democratas, ele teve que deixar a sigla depois que os tucanos Marcio Bittar e Tião Bocalom lhe armaram uma “emboscada política”. Resultou desse fato não apenas o retorno forçado do DEM à coligação tucana, como a extinção da candidatura de Jamyl a prefeito de Rio Branco e a ameaça de destituição da presidência da sigla no Acre. O parlamentar, então, antecipou-se a trocar o Democratas pelo PEN.
Deputado Jamyl Asfury afirma que, após ousar ser candidato contra Bocalom, recebeu um contra-ataque total do PSDB
Natural de Rio Branco, o pastor evangélico Jamyl, 39 anos, é casado com a também pastora Sandra Asfury, com quem tem três filhos. Engenheiro civil por formação, com MBA em administração pública, ele sonha alçar-se a um cargo executivo. E afirma existir uma técnica em engenharia que possibilita as mudanças estruturais de “dentro para fora”. Com isso, deixa claro que não pretende ser um mero espectador dentro da Frente Popular do Acre.
candidato tucano fingiu estar de acordo com a candidatura do Democratas, mas foi a Brasília tramar contra o antigo aliado
A seguir, a íntegra da entrevista feita na sexta-feira, no escritório que o deputado mantém no bairro Esperança.
Quais fatos foram determinantes para que o senhor trocasse a oposição pela base governista?
Jamyl Asfury – Tudo começou com um planejamento político que fizemos dentro da oposição a fim de criarmos um ambiente político semelhante ao da campanha passada e que nos possibilitasse a apresentação de um vice do meio evangélico. Isso para acomodar esse grande grupo social que a cada dia cresce mais em Rio Branco. Mas em um determinado momento nós percebemos que isso não seria possível com a candidatura encabeçada pelo Tião Bocalom, o que nos levou à ideia de criarmos uma candidatura própria. O assunto foi discutido dentro da própria oposição, e as pessoas que acompanham a política viram que essa era a regra daquele momento: quem tivesse condições de viabilizar uma candidatura que o fizesse, pois, usando uma frase do deputado federal Flaviano Melo (PMDB), “um time que não entra em campo perde torcida”. E o Democratas há muito não se apresentava com uma campanha majoritária. Então a ideia era fortalecer o partido no primeiro turno, já que teríamos uma eleição em dois turnos e no segundo juntaríamos todos os partidos de oposição para ganhar a eleição. E uma vez mais fomos frustrados - mas dessa vez foi uma forma diferente, muito dura, desleal.
Como assim?
Durante o programa Tribuna Livre [levado ao ar semanalmente pela TV Rio Branco], o próprio Bocalom, em um debate que tivemos, disse que era importante a candidatura do Democratas, que estava se esvaziando dos principais nomes em nível nacional, e por isso precisava criar novos quadros, e ele me citou como um grande quadro do partido. A importância da candidatura era essa, e é preciso ressaltar isso porque foram palavras dele, e elas estão gravadas.
Sua candidatura, portanto, foi resultado de um acordo?
Sim, e é bom que se esclareça que essa decisão foi tomada por nós - primeiro pela família, depois pelo grupo político e pela igreja. Feito isso, fui pessoalmente conversar com as lideranças do PSDB, o Bocalom e o Rocha [Major Wherles Rocha, deputado estadual e coordenador político da campanha tucana em Rio Branco]. Falei da candidatura, que fortaleceria o Democratas, e do compromisso de que no segundo turno estaríamos no mesmo palanque. Até ali as coisas pareciam bem.
Apenas pareciam...
Sim, apenas nas aparências estava tudo bem. Na volta de uma viagem que fiz a Israel, da qual participaram, entre outras pessoas, o pastor Afif Arão, fiquei sabendo pelas redes sociais que em quatro dias eu deixaria de ser pré-candidato a prefeito de Rio Branco. Como estava tudo certo para que eu fosse candidato - eu tinha ido a Brasília tratar desse assunto e havia recebido garantias da executiva nacional do partido -, fiquei preocupado com a notícia. Dois dias depois liguei para o senador José Agripino e viajei a Brasília. Lá, fui surpreendido pelo aviso de que não poderia seguir candidato devido a um acordo da executiva nacional entre o Democratas e o PSDB.
O senhor acha então que houve manobra do PSDB do Acre nesse sentido?
Quem esteve com o deputado federal Sérgio Guerra [presidente nacional do PSDB] omitiu o acordo feito aqui. Percebi que as palavras tinham sido tão duras contra mim - mentiras, eu acredito - que estavam propensos a não me reconduzir à presidência do partido no Acre.
A quem o senhor atribui essa detração?
Não tenho nomes, mas o PSDB tem uma representação estadual que faz a interlocução com Brasília. O principal interessado nessa discussão era o Sebastião Bocalom. Então eu atribuo essa manobra ao grupo político do qual ele faz parte. Não sei exatamente quem esteve lá, mas certamente o Marcio Bittar deve ter acompanhado toda essa situação junto com o Bocalom.
Mas não foi o deputado Marcio Bittar quem incentivou, em um primeiro momento, a sua candidatura a prefeito?
Ele não fez disso segredo para ninguém, dizendo que minha candidatura era importante, a ponto de se transformar em um entusiasta dela. Ele falava, inclusive, que isso estava dentro da regra política. Depois, para saber quem tinha ido a Brasília tramar contra minha candidatura, liguei para o Marcio, e ele disse que tudo o que se passava não era de se estranhar. Foi então que eu disse que não concordava com os métodos usados contra mim e avisei que, sendo assim, estaria declaradamente contra a candidatura do Bocalom. Houve então uma troca de telefonemas entre Marcio e Bocalom, e vinte minutos depois o Marcio me retornou a ligação para dizer que Bocalom queria o partido na aliança, ainda que eu estivesse fora dela. Isso magoa, claro. Mas eu já os perdoei.
O que houve em seguida?
Dei uma coletiva, da qual você participou, e eu até usei uma frase que a imprensa repercutiu, segundo a qual o Bocalom tinha levado o partido, mas não conseguiu levar o meu coração. Nós fomos preteridos de uma forma muito grosseira, muito estúpida, fomos impedidos de ter uma candidatura evangélica. É óbvio que depois disso as coisas não ficaram boas entre nós, a ponto de interferir nas candidaturas do Democratas nos municípios do interior. Veio um contra-ataque total. Forças políticas maiores ainda vieram contra mim. Eles lançaram uma candidatura suicida em Brasileia, e em Manoel Urbano colocaram na disputa o nome de uma pessoa cujo histórico não é exemplar. Estava estabelecido o caos.
O que o senhor tem a dizer da declaração do Major Rocha, segundo a qual o senhor usou a oposição apenas para se eleger?
Quem diz isso finge ignorar que tive 4.672 votos. Fui o mais votado da oposição e esse resultado me daria um mandato na Assembleia Legislativa, independentemente da coligação em que eu estivesse.
Em que momento o senhor se deu conta do que acontecia?
É preciso ressaltar que tudo o que aconteceu eu fiquei sabendo pela imprensa. Ninguém teve a coragem de olhar nos meus olhos e dizer o que estava acontecendo. Essa covardia acabou me afastando ainda mais, porque sou um homem que falo olhando nos olhos. Tudo o que decidi foi anunciado a cada um deles olhando nos olhos. Como me impediram de ser candidato e me tomaram a presidência do partido, temi por ficar sem o mandato. E antes que isso acontecesse, resolvi deixar a oposição.
Foi um jogo sujo, deputado?
Claro que foi.
O senhor cansou?
Cansei.
Entre os detratores de Jamyl junto à executiva nacional
do DEM estaria o deputado federal Marcio Bittar (PSDB)
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